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Herdeiro da Odebrecht: da arrogância à “conversão”


Mario Cesar Carvalho, Bela Megale e Walter Nunes.

Folha de S.P – Nas últimas semanas, para susto dos agentes da Polícia Federal, Marcelo Odebrecht começou a contar piadas na carceragem onde está preso em Curitiba (PR). O espanto tem motivo simples: Marcelo, cuja prisão completa um ano neste domingo (19), vivia cabisbaixo e quieto. Parecia arrogante, irascível e inconformado, como se fosse vítima de erros judiciais em série.

Agora se converteu em "gente boa", como é chamado por agentes da Polícia Federal. Até assiste à TV ao lado do doleiro Alberto Youssef, dono do aparelho, já que a porta das celas na carceragem ficam abertas.

A mudança ocorreu após a maior empreiteira do país, que faturou R$ 132 bilhões em 2015, decidir fazer um acordo de delação que promete ser histórico pelas revelações. Marcelo era inicialmente contra a colaboração, mas dobrou-se às evidências apresentadas por seu pai, Emílio Odebrecht: ou delata ou o grupo quebra. As dívidas chegam a R$ 90 bilhões. Finalmente ele topou.

Marcelo foi preso em 19 de junho, a partir de acusação que seus advogados consideravam frágil: a de pagar propina no exterior. O próprio juiz Sergio Moro revogou esse pedido e decretou uma nova prisão quando descobriu anotações que Marcelo fizera em seu celular, nas quais havia sugestão de destruição de provas e de interferência na apuração.

TRÊS PASSOS ATRÁS

Habituado a mandar e estar à frente dos concorrentes, Marcelo experimentou na prisão a sensação de estar sempre três ou quatro passos atrás dos investigadores. Enquanto ele negava ter usado contas no exterior para pagar suborno, procuradores já tinham provas vindas da Suíça da movimentação.

Quando seus advogados imaginavam que poderiam entregar algo grandioso para a polícia num eventual acordo de delação, como um departamento especializado em pagar suborno, a PF descobriu essa divisão em Salvador (BA) e uma testemunha-bomba: a funcionária que cuidava desse setor, Maria Lúcia Tavares, que aceitou fazer um acordo de delação. Ela conseguira escapar dos advogados da Odebrecht para se salvar da prisão.

Com a delação de Maria Lúcia os executivos e advogados na Odebrecht concluíram que não havia mais defesa possível para o grupo. Foi um baque para Marcelo. Em setembro de 2015, numa sessão da CPI da Petrobras, ele externou seu desprezo por delatores: "Quando lá em casa minhas meninas brigam, eu perguntava: ´Quem fez isso?'. Eu talvez brigasse mais com quem dedurasse".

Marcelo tinha tanta certeza de que sairia rapidamente da prisão que nem se licenciou da presidência do grupo. Despachava com advogados que iam até o presídio em Curitiba e dava ordens como se estivesse de férias.

Só em dezembro abriu mão do cargo por pressão de bancos e da família. Banqueiros, afinal, não gostam de dar crédito para uma empresa cujo presidente está preso. O executivo também exibiu o que os policiais classificam como "arrogância" ao ser interrogado por Moro sobre as anotações em seu celular.

Em vez de responder às perguntas do juiz, como faz todo réu, apresentou um texto prolixo, cheio de evasivas. A estratégia foi depois considerada desastrosa.
Depois que deixou a presidência do grupo, Marcelo substituiu a preocupação com negócios por exercícios físicos, em jornadas de até seis horas diárias. A bateria incluía duas horas de bicicleta, exercícios em barras, flexão e levantamento de peso com um galão de água que ele adaptara.

Essas jornadas só eram possíveis porque deixara a PF e fora transferido em julho de 2015 para o Complexo Médico Penal, na região metropolitana de Curitiba. Marcelo queria voltar a presidir a Odebrecht, o quarto maior grupo privado do país, após deixar a prisão. Mas foi convencido que é uma missão impossível para quem vai confessar o pagamento de subornos em escala jamais vista no Brasil.

Uma das maiores resistências contra a sua volta partiu do próprio pai. Emílio Odebrecht tem dito a amigos e advogados ouvidos pela Folha sob condição de anonimato que foi um erro ter colocado o filho para dirigir o grupo.

Apesar de ter estudado numa escola exemplar na Suíça, a IMD (International Institute for Management Development), Marcelo é considerado pelo pai um executivo inexperiente, até ingênuo.

Um exemplo recorrente da suposta ingenuidade foi ter montado um departamento para cuidar de propina dentro da própria empresa.


Marcelo começou a virar "gente boa", como dizem os policiais, pouco meses depois de regressar para a carceragem da PF. Ele foi trazido de volta para a sede da polícia em fevereiro, na mesma data da prisão do ex-marqueteiro do PT João Santana, como estratégia de pressão para que ele aderisse à delação premiada.

Afinal, a PF já tinha informações de que Santana recebera recursos da Odebrecht no exterior. Colocar um ao lado do outro poderia minar a resistência de Marcelo. A estratégia com Santana não funcionou, mas há cerca de um mês foi definido que ele faria o acordo. Mesmo pagando advogados caríssimos, os tribunais já haviam dado oito decisões contrárias à revogação da prisão dele.
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