Por mais que você não entenda os machos
que sempre buscam culpar as “vadias”, por mais que você condene o
discurso na linha “Bolsomito”, por mais que você julgue importante ter
mulheres nas equipes de governo, por mais que você vá à passeata
feminista, por mais que você ache bizarro o ator Alexandre Frota — o
piadista da cultura do estupro — em confraria com o ministro interino da
Educação em Brasília… Por mais que você se ponha no lugar da vítima,
nunca saberá o terror que se instala no cérebro como um pesadelo
interminável.
Mea culpa
Por mais que você resolva deixar de ser
reaça e retire o seu apoio aos projetos-de-lei homofóbicos do Congresso,
aos projetos anti aborto etc. Por mais que você esqueça o passado de
porco chauvinista. Por mais que você cresça e deixe de puxar os cabelos
das meninas nos bares, festas e boates. Por mais que você saque e nunca
mais caia na besteira de achar que existe “vadia para transar e santinha
para o casamento”. Por mais que tudo isso seja um avanço, ainda é
pouco, muito pouco, pouco mesmo para sentir o drama que apavora as
mulheres no vagão do trem, na rua escura, no parque…
Por mais que ampliamos a vergonha para
todos nós que fomos ou somos machistas, por mais que façamos um mea
culpa histórico, por mais que o crime hediondo seja punido
exemplarmente, por mais que tenhamos uma ideia da maldade humana nos
livros de ficção e na realidade… Por mais que tudo isso aconteça,
estamos ainda muito distante deste horror inominável.
Por mais que ralamos as nossas rótulas
da culpa no “Ajoelhaço” anual da Cooperifa — pedido de perdão coletivo
de homens na zona sul de São Paulo por erros e maus-tratos às mulheres
—, por mais que a reeducação de hábitos e atitudes surta algum efeito…
Mesmo assim, sinto muito, estaremos apenas começando a entender o
desastre da “cultura do estupro”. Por mais que sonhemos com outro tempo, o
tempo da delicadeza, o implacável relógio nos despertará, daqui a 11
minutos, para mais uma ocorrência.

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