O Marrocos
é um país de muitas caras. A exótica Marrakech, sem dúvida, é a face
mais conhecida. Mas uma travessia de oeste a leste do país, que pode ser
feita de carro em poucos dias entre a cosmopolita Casablanca, às
margens do Atlântico, e a pequena Erfoud, no coração do deserto do
Saara, permite entrar em contato com uma diversidade marroquina ainda
pouco explorada. São praias, campos, montanhas nevadas, oásis e dunas
numa sequência que foge do lugar comum.
VIAGEM NÃO SAI CARA, NEM BARATA
A proximidade com áreas conflagradas da África, como o Mali e o Egito, não comprometem a sensação de segurança no país, que se mantém, por enquanto, distante do radicalismo político e religioso.
O povo é amistoso e solícito, mas a religião — 98% da população é muçulmana impõe limites à socialização. Para evitar aborrecimentos, e também em sinal de respeito aos anfitriões, é aconselhável evitar o uso de roupas que exponham muito o corpo e nunca tomar bebidas alcoólicas nas ruas. Aliás, isto é proibido no Marrocos do rei Mohamed VI.
Caravana pelo Saara: montados em dromedários, turistas passeiam pelas dunas de Erg Chebbi, no Marrocos. Mas paisagens do país vão além do deserto Foto: Silvia Amorim / Agência O Globo.
O custo para turistas é mediano. Os hotéis seguem padrões europeus.
O cardápio dos restaurantes é democrático. Paga-se, em média, por um tagine (guisado de legumes, geralmente com carne), um dos pratos mais tradicionais no país, para três pessoas, cerca de R$ 100. A oferta de comida de rua é grande, e os souks, como eles chamam os mercados a céu aberto, o paraíso das compras. O árabe e o berbere são os idiomas oficiais do país.
Nos grandes centros, falam-se o francês, ensinado nas escolas, e o inglês, em menor escala. Mas em todo o país, qualquer dificuldade de comunicação é superada pela simpatia dos marroquinos.
Atravessando o deserto
Uma fila de dromedários sacoleja pelo chão de areia avermelhada do Saara, deixando para trás mais um pôr do sol nas dunas de Erg Chebbi, as mais procuradas do sul de Marrocos. Com o céu já escurecendo, os visitantes se equilibram ansiosos sobre o dorso dos animais e partem em direção ao momento mais esperado da viagem: acampar por uma noite no maior deserto do mundo.
Esqueçam barracas de camping, sacos de dormir e fogareiros. Os acampamentos destinados ao turismo no lado marroquino do Saara são versões mais charmosas, com tendas bem decoradas, cama, banheiro privativo e jantar com performances de artistas locais ao redor de uma fogueira regadas a vinho.
Com disposição, é possível caminhar até o topo de uma duna próxima ao acampamento e contemplar o incrível céu e o silêncio da noite no deserto.
Para cumprir o trajeto, há opções das mais simples às mais luxuosas, cabendo ao visitante escolher aquela que melhor se ajuste ao seu bolso.
Os preços variam de R$ 200 a R$ 1.250, o pernoite por pessoa. Nas categorias superiores, pode-se desfrutar de regalias como cama king size, bolsas térmicas para espantar o frio na hora de dormir e banheiro com água quente. Quer dizer, quente em relação à temperatura do lado de fora, que, em dezembro, chegou aos 3°C. Para os menos corajosos, lenços umedecidos podem ser a salvação.
O Saara é o maior e mais quente deserto do mundo. Mas não se engane. À noite, faz muito frio em qualquer época do ano. A alta temporada é em julho e agosto. Em geral, o tour no deserto é vendido em pacotes que incluem estadia, transporte e passeio de dromedário ao pôr do sol. Mas não é fácil chegar ao Saara. A partir de Marrakech, a viagem costuma ser feita em dois dias. Nela, praticamente se cruza o país de leste a oeste.
São cenários muito bonitos, que se tornaram rota turística. É o Caminho dos Mil Kasbahs, as antigas fortalezas de origem berbere — primeiros habitantes do deserto. Construídas a partir da mistura de argila, estrume e palha, algumas kasbahs são tombadas pela Unesco como na cidade de Ouarzazate, a Hollywood marroquina, e podem ser visitadas. De Marrakech até Ouarzazate, onde se faz outro pernoite, são cerca de cinco horas de estradas asfaltadas pelo interior do país. Boa parte do trajeto é de curvas.
Na segunda etapa da viagem, são mais seis horas de carro até Erfoud, uma das portas de entrada do Saara marroquino. É hora de abandonar o veículo comum e prosseguir num 4x4 para um rali pelas dunas por uns 50 minutos até a próxima parada: subir num dromedário que o levará até a duna mais alta da região de Erg Chebbi, para um pôr do sol, certamente, inesquecível. No mais, é conhecer o acampamento e deixar a noite cair.
NO CORAÇÃO DO ATLAS
Esses dois dias de viagem que levam ao deserto são um choque pela diversidade da paisagem. Não há sinal de dunas ou camelos. Mas campos verdejantes, vales, rios, montanhas e, claro, oásis. A depender da época do ano, oliveiras e tamareiras estarão carregadas à beira da estrada.
À mesa, como se fosse um marroquino
Refeição: set de pratos marroquinos servido de entrada
Silvia Amorim Agência O Globo
Não estranhe se vir uma rodinha de comensais dividindo a mesma travessa de legumes, carne e sêmola regados a um molho à base de especiarias. De colherada em colherada, é assim que se come o tradicional cuscuz marroquino no país. Mas não espere esse ritual em restaurantes, principalmente os turísticos. Tive a experiência de comer como os marroquinos, ao ser convidada para almoçar na casa de uma família na cidade de Agdz, no interior do país.
As residências costumam ter o piso coberto por tapetes, e as mesas são baixinhas para se comer sentado no chão. Praticantes do islamismo, apenas os homens da família se juntaram ao grupo de jornalistas brasileiros que estavam em viagem pelo país. As mulheres nos receberam na chegada, mas depois permaneceram em outro cômodo. Antes e depois da refeição, foi servido o tradicional chá de menta, com muitos torrões de açúcar.
A culinária marroquina se apresenta à mesa muito colorida. São ingredientes bastante conhecidos dos brasileiros, como beterraba, pimentão, abobrinha e lentilha, mas que ganham sabores inusitados por causa dos temperos e especiarias. Para entrar ainda mais no clima de “As mil e uma noites", vale fazer uma refeição em restaurantes que funcionam em antigos palacetes na medina.
Ao lado do cuscuz, o prato mais procurado pelos visitantes é o tagine, um cozido de carne (frango, boi ou carneiro), com legumes e uma lista extensa de temperos. Todos os ingredientes ficam no fogo por cerca de 4 horas em uma panela típica marroquina feita de barro e em forma de cone. Elas costumam chegar à mesa ainda borbulhando, e o aroma é delicioso. Assim como pizza no Brasil, há muitas combinações de tempero e ingredientes para o tagine. Dá para provar um tipo diferente a cada dia.
Menos famosas, mas igualmente gostosas, são as pastillas, torta de massa folhada com recheio de carne, de novo, muito bem temperada. Mas nesse caso a especiaria mais pronunciada é a canela, que dá o toque especial ao prato. Ela costuma ser pedida como entrada, mas, com saladinhas, substitui tranquilamente a refeição principal.
Na medina, há muita comida de rua. À noite, na praça Djemaa El Fnaa, é uma barraca ao lado da outra vendendo de tagine a sanduíches locais, como o pão com ovo cozido, queijo processado, cebola crua, molho de pimenta e purê de batata. Tudo misturado num pão redondo fofinho. Em clima bem parecido ao das nossas feiras livres, moradores e turistas dividem mesas ou balcões nessa enorme confusão gastronômica.
Sílvia Amorim viajou a convite da Delegação de Turismo de Marrocos
Serviço
ONDE COMER
Ksar El Hamra. Localizado na medina de Marrakech. restaurant-ksarelhamra. net/fr
Le Jardin. Dentro do Hotel Sofitel, Rue Harroun Errachid, Quartier de l’ Hivernage, 40.000, Marrakech.
La Kasbah des Sables. Em Ouarzazate. lakasbahdessables.com
ONDE FICAR
Acampamento no deserto. O Hotel Xaluca cobra 404 dirhans (R$ 170) por noite por pessoa em tenda standart, e outros 200 dirhans pelo passeio de camelo. Em tenda luxury, a noite sai por 1.400 dirhans (R$ 580) por noite por pessoa, e o passeio de camelo está incluído. xaluca.com
Hotel Kenzi Menara. Diárias em quarto duplo com café da manhã a partir de € 126. Em Marrakech. kenzi-hotels.com/ kenzimenarapalace/ default-en.html
Hotel Berbere Palace. A partir de € 185. Rue Al-Mansour Ad-Dahbi, Ouarzazate. facebook.com/ LeBerberePalace
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