Goiânia, GO, 17 (AFI) - Junto com o troféu que ganhou por ter feito o
gol mais bonito de 2015, Wendell Lira trouxe da Suíça a convicção de que
daqui para a frente vai poder ser só jogador de futebol, sem precisar
mais fazer 'bicos' para sustentar a mulher e a filha - como já teve de
fazer quando esteve sem contrato com algum clube. Chegou a hora de,
enfim, ter uma carreira bem sucedida como parecia que teria quando
jogava nas categorias de base do Goiás.
Em 2006, quando tinha 17 anos, ele chamou a atenção de olheiros do
Milan. Mas o Goiás não quis vendê-lo, apostando que o menino ainda
evoluiria muito e ficaria mais valorizado para ser vendido no futuro.
No mesmo ano, ele foi convocado para defender a seleção brasileira
sub-19 na Copa Sendai, um torneio disputado em setembro no Japão. O
Brasil foi campeão e ele marcou um gol na campanha. Alexandre Pato, oito
meses mais novo, marcou quatro e foi o artilheiro e melhor jogador da
competição. Logo depois ele explodiu no Internacional, e no ano seguinte
foi para o Milan.
A explosão que o Goiás - e Wendell também - esperava não aconteceu. Duas
contusões sérias no joelho e várias lesões musculares impediram Wendell
Lira de confirmar na equipe principal os prognósticos de que se
tornaria uma estrela. E em 2012, quando o clube não renovou o seu
contrato, ele começou uma peregrinação por times pequenos - a maioria de
Goiás.
Wendell começou a viver uma realidade enfrentada pela maior parte dos
jogadores brasileiros: tinha contrato para jogar apenas o Campeonato
Goiano, porque depois a equipe não tinha outra competição para disputar e
desmanchava o elenco.
Nos meses em que não havia campeonato para jogar, Wendell ajudava na
lanchonete da mãe e vendia panos com um amigo. A diária de R$ 25 era o
valor que lhe permitia comprar o leite e as fraldas da filha Marcela,
que tem dois anos e dez meses. "Quando trabalhei com minha mãe tentei
ser o melhor vendedor possível. Quando trabalhei dobrando pano, tentei
ser o melhor dobrador de pano possível. E quando estou dentro de campo
tento fazer o melhor possível também", disse.
Com a camisa do Goianésia, ele fez o melhor possível para acertar a meia
bicicleta que o consagraria internacionalmente. O gol eleito o mais
bonito do mundo foi visto por apenas 342 pessoas numa noite chuvosa no
Serra Dourada, mas dez meses mais tarde Wendell colheria os frutos, ao
desbancar nada menos que Lionel Messi na cerimônia da Bola de Ouro.
"Quando disseram o meu nome passou um filme na minha cabeça de tudo o
que vivi. Eu não conseguia levantar."
Ele foi recebido com festa pela torcida do Vila Nova-GO quando voltou ao
Brasil, embora ainda não tenha sequer jogado pelo clube. Assinou
contrato em novembro e vai estrear dia 31, contra o Goiás, na abertura
do Campeonato Goiano. A vitória de Wendell correu o mundo, mas ele não sabe se sua fama chegou
aos ouvidos do seu pai, João Lira Neto, que vive numa região remota do
Pará e não tem contato com a família há dois anos. Sua mãe, Maria
Edileuza, vive com o segundo marido, Claudino Nepomuceno. E foi a ela,
que nas entrevistas sempre repetiu que nunca deixou de acreditar que o
filho faria sucesso no futebol, que ele dedicou o prêmio.

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