Ela tem 23 anos e foi repetidamente estuprada por diferentes homens
depois de ter sido sequestrada, no oeste da Índia. Como consequência,
não apenas engravidou como está sendo obrigada pela comunidade local a
passar por "testes de purificação" — um ritual que persiste nessa parte
do território indiano, apesar de sua crueldade.
A mulher de 23 anos, que não pode ser identificada por questões legais, é
tímida e de voz suave. Ela morava com o marido e dois filhos em Surat
quando foi raptada, em julho de 2014, e estuprada várias vezes por mais
de cinco homens durante oito meses.
Diversos casos de estupro coletivo têm causado forte repercussão na
Índia, sobretudo quando, em 2012, uma estudante foi assassinada depois
de ser violentada em um ônibus em Nova Déli. O governo endureceu as leis
contra esse tipo de crime em 2013, após diversas manifestações de
indignação pelo caso.
Mas o estigma em torno das vítimas permanece. No caso da jovem de Surat,
seu pedido para realizar um aborto foi rejeitado pela Suprema Corte
local, pois a gravidez já estava muito avançada.
Antes, ela vivia com os sogros, mas esses não a querem de volta. Agora,
mora com o marido e os dois filhos em uma casa de dois cômodos no
vilarejo de Devaliya, no Estado de Gujarat.
A jovem passa todo o tempo com os filhos, abraçada a eles.
Os pais da mulher a aceitam de volta, mas temem que o bebê que está
prestes a nascer, fruto do estupro, traga consequências para o resto da
família.
"Tenho outros dois filhos, ambos solteiros. Se ela tiver o bebê e ficar
com ele, ninguém vai se casar com [meus filhos]", explicou a mãe da
jovem. "Meu filho de 14 anos será expulso. A única saída é que ela passe
pelo 'chokha thavani viddhi' [ritual de purificação] e qualquer que
seja a decisão da comunidade, será final."
Sistema religioso
O ritual é realizado entre os membros da comunidade devipujak, em
Gujarat, à qual a vítima pertence. Os devipujak têm seu próprio sistema
de Justiça para decidir a respeito de vários assuntos, incluindo
infidelidade e estupro.
Não está claro se essas audiências passaram pelo crivo das autoridades
da região, mas elas nunca foram investigadas pela polícia.
Um idoso do vilarejo, Odhabhai Devipujak, explicou que o ritual de
purificação é conduzido por um sacerdote específico, que pratica a magia
negra e acredita em poderes sobrenaturais — e cuja existência precede a
das cortes de Justiça e polícia.
No ritual, o sacerdote faz várias perguntas à mulher ou garota que
sofreu o estupro e "descobre" se ela está falando a verdade com o
seguinte método: pegando um punhado de sementes de cevada de um saco e
pedindo que ela adivinhe se o número de sementes que ele tem na mão é
par ou ímpar.
Se a menina ou a mulher errar a resposta, o sacerdote presume que as outras respostas dadas eram mentira.
Ela então tem que repetir o processo com uma pedra de 10 kg na cabeça.
Ela precisa manter a pedra equilibrada na cabeça até que o sacerdote
esteja satisfeito e acredite que ela está falando a verdade.
"Às vezes leva meses para purificar, pois a pessoa está inicialmente
mentindo, mas a Deusa sabe de tudo e eventualmente elas precisam falar a
verdade", disse o idoso.
"Quando a garota é purificada e passa no teste, ninguém pode criticar a
família ou deixá-la no ostracismo. Mas se a garota não passar no teste e
a Deusa disser que ela não é pura, então ela pode ser isolada da
comunidade", acrescentou o idoso.
Apenas mulheres
Sardasinh Mori, um amigo da família da vítima, afirmou que esses procedimentos são exigidos apenas de mulheres.
"Toda vez que um marido tem dúvidas sobre a esposa, ou uma menina
solteira é acusada de ter um caso, para purificar uma mulher e
libertá-la das transgressões, é feito o processo de purificação. Para os
homens, a corte da comunidade faz testes para saber se eles estão
falando mentiras, mas nenhuma purificação é usada", explicou.
O marido da vítima, um carroceiro, disse que vai apoiar sua mulher.
"Vou ficar com ela. Tenho dois filhos e não posso casar de novo", afirmou.
A vítima disse que se sente dividida: parte dela quer ficar com o bebê,
mas o destino dela e do bebê está nas mãos de entre 100 e 200 pessoas
que participam do ritual de purificação.
"Se eu estiver errada, então a Deusa dirá a eles", disse.
Foto: BBC Fonte: BBC Brasil

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