Desde meados da década de 1960, convencionou-se comemorar o Dia
Internacional da Mulher em 08 de março. Essa data é tida como símbolo de
uma série de reivindicações e conquistas de direitos, sobretudo no
âmbito trabalhista. Entretanto, a escolha dessa data para tal
comemoração frequentemente está associadas a equívocos ou a invenções
históricas que precisam ser elucidadas.
Entretanto, houve sim um incêndio em uma fábrica de tecidos em Nova
York, mas ele aconteceu no dia 25 de março de 1911, às cinco horas da
tarde, na Triangle Shirtwaist Company, e vitimou 146 pessoas, sendo 125
mulheres e 21 homens. A maior parte dos mortos era constituída de
judeus. As causas desse incêndio foram as péssimas instalações elétricas
da fábrica associadas à composição do solo e das repartições da fábrica
e, também, à grande quantidade de tecido presente no recinto, o que
serviu de acelerador para o fogo. A esse cenário trágico somou-se o
agravante de alguns proprietários de fábrica da época, incluindo o da
Triangle, usarem como forma de contenção de motins e greves o artifício
de trancar os funcionários na hora do expediente. No momento em que a
Triangle pegou fogo, as portas estavam trancadas.
Um ano antes dessa tragédia, em 1910, na cidade de Copenhague, ocorreu o
II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, que foi apoiado
pela Internacional Comunista. Nesse evento, a então membro do Partido
Comunista Alemão, Clara Zetkin, propôs a criação de um Dia Internacional
da Mulher, sem, entretanto, estipular uma data específica. Essa
proposta era fruto tanto do feminismo, que ascendia naquela época,
quanto das correntes revolucionárias de esquerda, como o comunismo e o
anarquismo – inclusive, a anarquista lituana Emma Goldman foi um dos
nomes mais importantes da época.
O incêndio de 1911 viria a ser sugerido, nos EUA, como dia simbólico das
mulheres (tal como sugerido por Clara Zetkin). A maioria dos movimentos
reivindicava melhorias nas condições de trabalho nas fábricas e, por
conseguinte, a concessão de direitos trabalhistas e eleitorais (entre
outros) para as mulheres. Vários protestos e greves já ocorriam na
Europa e nos Estados Unidos desde a segunda metade do século XIX. O
movimento feminista e as demais associações de mulheres capitalizaram
essas manifestações, de modo a enquadrá-las, por vezes, à agenda
revolucionária. Foi o que aconteceu em 08 de março de 1917 na Rússia.
Sabemos que a Revolução Russa
ocorreu em 1917, ou melhor, completou-se em outubro de 1917. Pois bem,
no dia 08 de março desse ano, as mulheres trabalhadoras do setor de
tecelagem entraram em greve e reivindicaram a ajuda dos operários do
setor de metalurgia. Essa data entrou para a história como um grande
feito de mulheres operárias e também como prenúncio da Revolução
Bolchevique, como acentuou a pesquisadora Eva Alterman Blay, em seu
artigo intitulado 8 de março: conquistas e controvérsias:
“No século XX, as mulheres trabalhadoras continuaram a se manifestar em
várias partes do mundo: Nova Iorque, Berlim, Viena (1911); São
Petersburgo (1913). Causas e datas variavam. Em 1915, Alexandra
Kollontai organizou uma reunião em Cristiana, perto de Oslo, contra a
guerra. Nesse mesmo ano, Clara Zetkin faz uma conferência sobre a
mulher. Em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro no Calendário Juliano),
trabalhadoras russas do setor de tecelagem entraram em greve e pediram
apoio aos metalúrgicos. Para Trotski esta teria sido uma greve
espontânea, não organizada, e teria sido o primeiro momento da Revolução
de Outubro.” [1]
Após a Segunda Guerra Mundial,
o dia 08 de março (em virtude da greve das mulheres russas) começou a
tornar-se aos poucos o símbolo principal de homenagens às mulheres. Ao
mês de março também foi, a partir de então, associado o evento do
incêndio em Nova York, ocorrido no dia 25. A partir dos anos 1960, a
data já estava praticamente consolidada, como apontou Eva Blay:
“Na década de 60, o 8 de Março foi sendo constantemente escolhido como o
dia comemorativo da mulher e se consagrou nas décadas seguintes.
Certamente esta escolha não ocorreu em consequência do incêndio na
Triangle, embora este fato tenha se somado à sucessão de enormes
problemas das trabalhadoras em seus locais de trabalho, na vida sindical
e nas perseguições decorrentes de justas reivindicações.”


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