É como se a Dilma de agora não fosse uma herança da Dilma dos últimos
quatro anos, ou seja, como se Dilma não tivesse nada a ver com os
problemas que Dilma criou
Zuenir Ventura, O Globo
Já que foi a própria presidente que escolheu a imagem — talvez por
identificação com o universo rural de sua afilhada de casamento Kátia
Abreu — vamos continuar com ela. Como se recorda, a candidata Dilma
assegurou que não mexeria nos direitos trabalhistas e, para não deixar
dúvida, repetiu uma expressão popular que acabou invadindo de forma
viral as redes sociais — “nem que a vaca tussa” — e com a hastag #em
direito meu ninguém mexe.
Um sucesso, pelo menos até depois das eleições, quando um dos primeiros
anúncios de controle de gastos para garantir o ajuste fiscal foi
justamente restringir benefícios dos trabalhadores tais como
seguro-desemprego e abono salarial. A presidente teria resistido muito a essas medidas, mas não houve jeito.
São tempos de vacas magras, poderá ter-lhe dito a equipe econômica,
quem sabe. Ou, então, o mar não está pra peixe, como afirmaria o jovem
ministro da Pesca, Helder Barbalho, um dos sapos que ela teve que
engolir — sapo ou rã?
Por meio de artifícios semânticos no discurso de posse, a presidente
procurou disfarçar as dificuldades que vai enfrentar no segundo mandato.
Em vez de detalhar o que pretende fazer para tentar a retomada do
desenvolvimento econômico, por exemplo, repetiu a defesa da Petrobras,
não para uma autocrítica de seu governo, mas para exaltar o seu combate à
corrupção, atribuindo os escandalosos desvios praticados na estatal a
“alguns servidores” e a “predadores internos e inimigos externos”.
É como se a Dilma de agora não fosse uma herança da Dilma dos últimos
quatro anos, ou seja, como se Dilma não tivesse nada a ver com os
problemas que Dilma criou. “Mais do que ninguém, sei que o Brasil precisa voltar a crescer”, disse
ainda a presidente reeleita. “Os primeiros passos desta caminhada passam
por um ajuste das contas públicas, aumento na poupança interna,
ampliação de investimento e elevação da produtividade da economia.”
Da mesma maneira que prometera manter todos os direitos trabalhistas e
previdenciários, ela garante que fará a correção e os acertos “com o
menor sacrifício possível para a população, em especial os mais
necessitados”.
A presidente Dilma, como se viu, não conseguiu evitar que a vaca tossisse. Agora, terá que impedir que ela vá pro brejo.

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