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‘Noruega em miniatura’: conheça a cidade que superou a destruição nazista e se tornou capital cultural da Europa

'Noruega em miniatura': Conheça Bodo, cidade que passou da destruição nazista a ser a capital cultural da Europa

'Noruega em miniatura': Conheça Bodo, cidade que passou da destruição nazista a ser a capital cultural da Europa — Foto: Freepik

O Globo - Em 27 de maio de 1940, aviões alemães lançaram cerca de 70 toneladas de explosivos sobre o território de Bodø, no norte da Noruega. O objetivo era destruir uma estação de rádio e uma pista de pouso. Mas os incêndios consumiram tudo. Estima-se que mais da metade das casas desapareceram, junto com o passado do local. A pequena cidade de pescadores e lenhadores nunca mais foi a mesma.

A reconstrução apostou na modernidade e no concreto. A Otan instalou ali uma base aérea logo no início da Guerra Fria, e Bodø cresceu, tornando-se um centro administrativo com cerca de 50 mil habitantes. À beira-mar, cercada por montanhas, assim como antes. No entanto, diferente.

No início de agosto, a cidade apresentava outra face. Em vez de gritos ou exercícios militares, ouviam-se concertos de rua, bicicletas e o burburinho de centenas de pedestres. Em resumo, vida. E a culminação de um renascimento. Isso porque Bodø foi escolhida como Capital Europeia da Cultura de 2024: agora exibe orgulhosa exposições ambiciosas, festivais literários, palestras no meio da natureza ou dança em cabanas nas florestas.

Onde antes não havia nada, hoje se ergue “o maior projeto artístico jamais concebido no norte da Noruega”, segundo a organização. Pela primeira vez, o reconhecimento da União Europeia recai além do Círculo Polar Ártico. Mais de 1000 eventos e um investimento de US$30 milhões, majoritariamente de fundos públicos, para valorizar Nordland, uma das regiões mais austeras e espetaculares da Europa.

Nada de estereótipos “sobre gelo e ursos polares”, segundo Henrik Sand Dagfinrud, diretor do programa Bodø 2024. O projeto visa contar a história de uma terra tão extensa quanto a Suíça, mas muito alongada e com apenas 240 mil habitantes. Dura e deslumbrante, com semanas inteiras de luz ou de escuridão, exige resistência e adaptabilidade em troca de paisagens incomparáveis no mundo. Uma “Noruega em miniatura”, como a chamam. A própria Bodø, de passagem, quer começar a escrever um futuro diferente. Embora as visões dos cidadãos sobre o próximo capítulo divirjam e se choquem. A dialética, afinal, também é cultura.

— O objetivo de Bodø 2024 é contribuir para desenvolver o talento local e, ao mesmo tempo, trabalhar na imagem internacional da cidade — diz Sand Dagfinrud.

Primeiro, colocá-la no mapa. Depois, nos planos de mais viajantes. Talvez os fãs de futebol a conheçam pela humilhante vitória de 6-1 que o time local aplicou em 2021 na Roma, então comandada por José Mourinho. Alguns torcedores ainda relembram com sarcasmo que o português culpou o gramado sintético, entre outras razões. A onda de bandeiras amarelas penduradas em tantas casas sugere que o clube continua trazendo alegrias. Mas Bodø busca vitórias além do estádio.

O projeto de capital cultural europeia espera cerca de 500 mil visitantes ao longo do ano. E que cada um leve uma lembrança, seja pelo berço do hip-hop norueguês, pela arte dos indígenas Sami, pelas bolsas de pele de salmão vendidas por Elisabeth Benonisen na EBN ou pelo chocolate com “sabor ártico” criado por Craig Alibone na confeitaria homônima.

— Dá para perceber pelo aumento de gente que vem — reconhece Gonzalo Beamonte, chefe de cozinha do Txaba, que desde outubro de 2023 oferece receitas espanholas com um toque local.

Porto de passagem, onde se pega o ferry para o arquipélago das Lofoten, Bodø pede para ser notada. E apresentou centenas de razões para chamar a atenção.

Natureza, arte e transição para o futuro são os três pilares do projeto. Há espetáculos de teatro sobre o trágico legado da Segunda Guerra Mundial; uma colaboração artística com a cidade africana de Segou; trilhas com poesia no parque Saltfjellet; ou um festival gastronômico na ilha de Herøy. Cultura fora e dentro de Bodø. Um passeio pela cidade traduz na prática mais ideias: uma praça cheia, diante do palco do Musikkfestuke; um vaivém constante de ciclistas, em vista da corrida ártica que também faz parte do programa; o principal museu da cidade, dedicado durante o ano todo à cultura Sami, reprimida e discriminada na primeira metade do século passado. Tudo iluminado pelo brilho do sol da meia-noite, longas semanas de verão em que nunca anoitece.

E o entusiasmo dos noruegueses por atividade dispara.

— Pela manhã fui fazer esqui cross-country no Parque Nacional Sjunkhatte, a apenas uma hora de carro. Mais tarde, assisti a músicos de nível mundial com a Filarmônica Ártica no centro Stormen — exemplifica Kristin, aposentada de 69 anos, no “Agora nos Escutam”, uma publicação divulgada pela galeria de arte Noua. E que, ao mesmo tempo, coleta temores e preocupações sobre o rumo de Bodø.

Porque a cidade se prepara para mudar novamente. Desta vez, não por guerras alheias, mas por decisão própria. A capital cultural faz parte da última reforma: em 2012, o Estado relocou a base aérea, que hoje já está fechada. Centenas de empregos se foram. Houve um “choque”, segundo Sand Dagfinrud, mas também uma oportunidade. Daí surgiu a ideia de se candidatar como centro artístico para 2024. E também de remodelar seu mapa: está previsto que Bodø desloque alguns metros o aeroporto e construa um novo distrito nas 300 hectares que ficarão livres. Mas como? E para quê?

— A expansão da cidade foi limitada pelo espaço restrito. Nas próximas décadas, Bodø realizará um dos maiores projetos de desenvolvimento urbano da Europa — descreve o site da prefeitura, que prevê espaço para 30 mil residentes e 20 mil postos de trabalho.

Trata-se, segundo a municipalidade, de lidar com o constante crescimento populacional, o êxodo juvenil e a criação de mais opções de negócios. No entanto, os cidadãos não demonstram a mesma confiança.

Várias vozes denunciam que a arquitetura local está traindo o passado: como a construção do colossal e “desnecessário” Wood Hotel, no topo de uma colina, em vez das pequenas cabanas de madeira espalhadas pela costa e florestas de Nordland.

— Talvez estejam tentando compensar os preconceitos de cidade pesqueira — admite Roger Johansen, morador e responsável pelo marketing da Northern Norway. O fato é que, à medida que se afasta do centro, os edifícios dão lugar precisamente às casas tradicionais. Dois andares, uma entrada, muitas vezes um trampolim ou um escorregador no jardim.

O desenvolvimento estranho de Bodø foi frequentemente atribuído à pressa da reconstrução. Às vezes, tempos antigos e modernos ainda se misturam. O restaurante moderno Bryggerikaia oferece pratos elegantes com vista para o mar e… também para crianças em trajes de banho que brincam empurrando-se no cais. Mas a capacidade hoteleira dobrou em uma década. Exagerado, para os céticos. Inteligente, para os promotores.

Dois estrangeiros ligados à região, Gonzalo Beamonte e o escritor italiano Davide S. Sapienza, concordam na crítica: um país muito capitalista, com rios de dinheiro por seus recursos naturais e, ultimamente, ideias questionáveis sobre como gastá-lo. Embora ambos também se rendam às paisagens que cercam Bodø e impressionam de praticamente qualquer ponto de Nordland. Algo que, por enquanto, também contagia os turistas.

— Geralmente é gente consciente. Você não vem para festejar, vem pela natureza — aponta Beamonte.

A cidade obteve a certificação nacional como Destino Sustentável. Não significa que seja 100% sustentável, mas que trabalha para reduzir os impactos negativos do turismo. Marie Peyre, francesa radicada há anos na Noruega e agora responsável pela comunicação de Bodø 2024, garante:

— Acredito que atrai quem busca algo diferente, quem prefere nadar no gelo a tomar sol; quem busca um pouco de aventura. Não é para todos e certamente não é para os fracos de coração — diz.

A julgar pela história, os sobressaltos estão garantidos. A julgar pelo ambiente, as alegrias também.

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