
G1 - Estado que registrou a maior alta de acidentes rodoviários no primeiro semestre deste ano desde 2018, o Paraná foi o palco de um trágico acidente que resultou na morte de nove pessoas na noite de domingo, seis delas adolescentes de uma equipe de remo. Uma carreta de transporte de contêineres se chocou e em seguida tombou sobre uma van que transportava uma equipe do projeto Remar para o Futuro, por volta de 21h40m no Km 665 da BR-376, na altura de Guaratuba, perto da divisa do Paraná com Santa Catarina.
A van havia saído de São Paulo e tinha como destino Pelotas (RS), onde fica a sede do projeto. Os atletas mortos são Samuel Benites Lopes, Henry da Fontoura Guimarães e Nicole Cruz, todos com 15 anos; João Pedro Kerchiner e Vitor Fernandes Camargo, ambos com 17 anos; Angel Souto Vidal, de 16 anos; e Helen Belony, de 20 anos. O treinador Oguener Tissot, de 43 anos, e o motorista do carro que levava a equipe, Ricardo Leal da Cunha, de 52 anos, também morreram.
O motorista da carreta, de 30 anos, e um dos remadores, João Milgarejo, de 17 anos, sobreviveram ao acidente, assim como Macksuel Souza, de 27 anos, condutor de um veículo que teve a traseira abalroada pela van no início do acidente. Milgarejo e o motorista foram socorridos no Hospital Municipal São José, em Joinville (SC), e receberam alta ontem.
De acordo com a Polícia Rodoviária Federal, a carreta teria perdido os freios e atingido a traseira da van, que se chocou no carro dirigido por Macksuel. Ele relatou que, após sentir o impacto, acelerou e em seguida viu pelo espelho retrovisor do seu carro a van rodopiando na pista. Depois, o caminhão tombou sobre o veículo que conduzia os atletas, empurrando-o para a mata ao lado da rodovia.
— Voltei ao local do acidente e vi o caminhão em cima da van. Havia um monte de gente berrando — disse Macksuel ao portal ND Mais.
O desastre aconteceu no fim de semana em que a equipe havia conquistado sete medalhas no Campeonato Brasileiro de Remo Unificado, na Raia Olímpica da USP, em São Paulo.
Os jovens levaram medalhas de ouro no four skiff masculino e four skiff feminino, além de três medalhas de prata e duas de bronze, encerrando a competição como a sexta melhor equipe, à frente de clubes tradicionais como o Pinheiros. Todos os oito atletas do projeto ganharam medalhas.
Criado em 2015, o Remar para o Futuro recrutava atletas entre adolescentes a partir dos 12 anos nas escolas públicas de Pelotas. A iniciativa já enviou atletas para cinco campeonatos mundiais seguidos e formou integrantes de algumas das principais equipes de remo do país, como o Flamengo e o Grêmio.
Parte dos mortos havia sido afetada pelas fortes chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul em maio deste ano, tendo morado em abrigos por meses. Além disso, os treinos foram prejudicados pela perda de barcos e de outros materiais. Oguener Tissot foi um dos idealizadores e era o principal responsável pelo Remar para o Futuro.
— Esse projeto era a vida dele — resumiu o primo de Oguener, Fábio Arduim.
Em Pelotas, parentes e amigos dos mortos se reuniram após a tragédia na sede do clube onde os adolescentes treinavam.
— Foram muitos sonhos destruídos, dilacerados — lamentou Davi Rubira, ex-integrante do Remar para o Futuro, que foi ao clube confortar os parentes.
Vizinha do clube, a terapeuta ocupacional Roberta de Souza lembrou dos remadores como “uma gurizada maravilhosa”:
— Meninas, meninos com um futuro pela frente. A gente se encontrava sempre.
Nas redes sociais, Amanda Kerchiner lamentou a morte do primo João Pedro e reforçou o orgulho por ele ser um esportista que começava a se destacar. “Hoje uma parte de mim se foi, meu coração tá em pedaços e nunca questionei tanto a vida como agora”, escreveu. “Sempre foi meu amigão, nunca esquecia de me mandar mensagem ou de tirar um tempinho para me ver apesar dessa rotina de atleta que tinha, e que me dava muito orgulho inclusive”, lembrou.
Irmão de Henry, Ítalo Fontoura Guimarães usou seu perfil nas redes para criticar a falta de recursos que levou a equipe a usar uma van para ir e voltar a São Paulo. “A prefeitura de Pelotas, os patrocinadores, vocês, todo mundo envolvido… Não tinham dinheiro para as passagens de avião… Mas terão dinheiro para o transporte deles de volta, após estarem mortos. Vocês entendem a hipocrisia disso?”, questionou.
A postagem foi em resposta à publicação da presidente Confederação Brasileira de Remo, Magali Moreira, lamentando as mortes. Pelo perfil da entidade, Moreira publicou que se solidarizava “com a dor de amigos e familiares dos atletas, da equipe do Centro Português e Remar para o Futuro, atingidos pela tragédia ocorrida na noite de ontem”.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também usou as redes para lamentar o episódio. “Não há palavras que possam descrever a dor de perder um filho ou neto. A dor é irreparável. Meus sentimentos e solidariedade aos familiares e amigos das vítimas”, publicou o presidente.
Outro que manifestou pesar foi o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. “Estavam no auge de suas carreiras, conquistando medalhas e levando o nome do nosso Rio Grande ao topo em uma competição de grande relevância nacional”, postou Leite em uma rede social. A prefeitura de Pelotas decretou luto oficial de sete dias por conta do acidente. A prefeita de Pelotas, Paula Mascarenhas, se encontrou com parentes das vítimas na manhã de ontem.
No primeiro semestre do ano, o número de acidentes de trânsito bateu recorde no Paraná, segundo as estatísticas do Registro Nacional de Acidentes e Estatísticas de Trânsito, do Ministério dos Transportes. O estado registrou 51.426 desastres, quantidade 12% maior que no mesmo período de 2023 e a maior da série histórica iniciada em 2018.
Com a alta, o Paraná também bateu recorde de pessoas feridas neste primeiro semestre em acidentes de trânsito: 113.204, o que representa um percentual também de 12% na comparação com o primeiro semestre do ano passado. O número de mortos ficou no patamar dos últimos anos. Foram 564 até julho, enquanto houve 579 óbitos nos primeiros seis meses de 2023.

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