Ingrid de Araújo, comerciante e mãe de Iasmin Lorena de Araújo.
Tribuna do Norte - Durante 26
dias, Ingrid de Araújo, de 27 anos, mobilizou toda a Comunidade da
África e parte da Redinha nas buscas por sua filha, Iasmin Lorena de
Araújo, de 12 anos, desaparecida no dia 28 de março deste ano. Além das
buscas diárias, juntamente com vizinhos e amigos, Ingrid organizou três
protestos que demandavam respostas da polícia sobre o andamento das
investigações do desaparecimento de sua filha. Eles fecharam os dois
acessos à ponte Newton Navarro, onde permaneceram por horas em meio a
xingamentos e ameaças por parte dos motoristas. Iasmin era a filha mais
velha de Ingrid, que também tem um menino, de cinco anos.
Apenas um
dia depois do corpo de sua filha ter sido encontrado, a apenas 74 passos
de sua casa, Ingrid se deparou com mais uma provação: descobriu, quando
estava colhendo material genético para o exame de DNA de identificação
da filha, que o principal suspeito de ter matado Iasmin, Marcondes Gomes
da Silva, seu vizinho há 27 anos, acusou-a de ter um caso com ele, e
ter participado da morte da própria filha. “Comecei a me tremer. Sabia
que se esse boato ganhasse força, eu iria morrer”, disse a mulher que,
atualmente, está na casa do pai de Iasmin, Aldair Félix, também na
África.
Além de ter
que lidar com a morte de Iasmin, Ingrid passou a sofrer na pele o poder
dos boatos disseminados pelas redes sociais. De um minuto para o outro,
ela estava sendo acusada como mandante do crime, amante de Marcondes, e
até mesmo “psicopata”. Os boatos ganharam uma força tal que ela
precisou ser escoltada para casa com ajuda da PM. Ao chegar lá, dezenas
de moradores da comunidade aguardavam para linchá-la. Foi preciso que os
policiais conversassem com a população para esclarecer que nunca houve
qualquer acusação formal contra a mulher, e ela não havia sido presa em
nenhum momento. Sobre todos esses temas, a Tribuna do Norte conversou
com Ingrid na tarde desta sexta-feira (28).
Confira a entrevista:
Onde você estava quando escutou a história de que você seria
amante de Marcondes e teria participado da morte de sua filha? Qual foi
sua reação?
Eu
estava no Itep. Achei que ia ser presa. Ele disse que eu era amante
dele e tinha sido cúmplice na morte da minha própria filha. Eu comecei a
me tremer. Só conseguia pensar no meu filho, no sofrimento dele se
alguém me prendesse. Me levaram para a delegacia e eu falei à delegada:
eu sou inocente. Provo. Faço o que a senhora quiser. Ela continuou
insistindo. Perguntaram de várias formas diferentes se eu tinha certeza.
Me disseram que ele tinha fotos minhas, e eu falei “pois eu quero ver
essas fotos, mande ele mostrar”. Me disseram que ele vivia ligando pra
mim. Eu peguei meu telefone e entreguei, mandei rastrearem meu chip,
puxar todas as minhas ligações. Uma hora a delegada disse que acreditava
em mim, que eu era inocente. Perguntou se eu teria coragem de falar com
a imprensa, de voltar pra casa. Eu falei “tenho que falar. Se eu não
botar minha cara lá e disser na cara de todo mundo que eu não fiz isso,
vão achar que eu estou fugindo”. Esse boato podia ter custado a minha
vida. Meu filho podia ter ficado sem mãe. Tem que ter muito cuidado na
hora de espalhar um boato, porque isso pode acabar com a vida de uma
pessoa. Eu estou entrando com uma ação contra a página que divulgou que
tinha um mandado contra mim. O próprio pessoal da polícia me orientou,
já arranjei um advogado que vai processar. Eu vi gente que nunca me viu,
nunca me conheceu, não sabia da minha dor dizendo que eu era fria. Que
eu não amava a minha filha. Que eu era amante desse homem.
Foi
desesperador. Quando eu soube da notícia, a única coisa que eu
conseguia pensar era “vão me matar. Eu vou morrer”. Não parava de pensar
no meu filho pequeno. Consegui entrar em casa graças a ajuda da PM, que
conversou com o pessoal que estava lá na frente. Quando eles disseram
que eu era inocente, alguns até bateram palmas. Acho que no fundo eles
não queriam acreditar na história, mas tenho certeza que se ninguém
tivesse desmentido, eu estaria morta agora.
Eu
não conseguia acreditar. Até agora não consigo. Eu sei que ele se
entregou, que confessou... Mas eu ainda não acredito. A ficha não caiu,
como dizem. Ele me conhece desde pequenininha. Sempre tivemos uma
relação muito boa. Eu já tinha ouvido um boato de que ele queria 'pegar'
uma sobrinha da mulher dele, que ele não falava com a cunhada por causa
desse boato que houve. Mas isso era só um boato. A gente nunca para pra
pensar nessas coisas de forma séria até que acontece uma desgraça
dessas.
Um
pouco. Alivia um pouco saber que o culpado apareceu. Finalmente,
entender o que aconteceu com a minha filha. Mas a minha vida não vai ser
como era, nunca mais. A gente já consegue rir, sabe? De vez em quando,
alguém faz uma brincadeira, e a gente percebe que consegue rir. É um
negócio que eu achei que nunca mais ia conseguir fazer. Mas a verdade é
que o vazio é permanente. É justamente quando a gente ri e percebe que a
risada dela não está lá que a gente sente a dor, e chora. Chora muito.
Eu queria botar na minha cabeça o porquê dele ter feito isso, mas agora é
esperar para ver.
A
parte mais difícil foi contar para o meu filho mais novo. Ele agora já
sabe. Eu expliquei que a estrela que brilhar mais no céu era ela, que
estava olhando pra gente. Aí ele fica assim: “mainha, é ela que tá
ali?”, e aponta pra uma estrela. Aí eu falo que é, e ele pergunta:
“mainha, por que ela foi pra lá?”, e eu explico que foi Jesus que chamou
ela. Que ela virou uma estrela pra brilhar olhando pra gente. Ele fica
calado. Muito tempo calado. Mas às vezes ri, brinca. Com as crianças é
diferente, não é? Ele está na casa da minha irmã, lá tem as primas dele,
ele brinca e ocupa mais a mente. Aqui, ele ia ver esse sofrimento, a
gente chorando o tempo todo... Não quero essa dor pra ele.
Que
ele acabou com a minha vida. Acabou com meu sonho. E eu sei que ainda
vou ficar frente a frente com ele e dizer isso na cara dele. Minha vida
nunca mais vai ser a mesma, e a culpa é dele.
O
de ver a minha filha formada. Tudo que a gente fazia era juntas. Era só
nós três a maior parte do tempo. Pra sair, pra vender as coisas, pra
arrecadar dinheiro, pra ir nas festas: era nós três. Eu queria ver minha
filha formada. Minha filha gostava da escola. Ela estava no sétimo ano,
estava um ano adiantada. Ela sonhava em ser médica. E eu dizia a ela:
“eu sou pobre, eu sou humilde, mas eu vou lutar até o dia que eu morrer
pra realizar o seu sonho”. E ele tirou isso de mim. Tirou isso da minha
filha, essa chance de realizar o sonho dela. Por mais que ele seja
preso, nunca vai acabar. Ele destruiu a minha família, e a dele também. O
filho dele só faz chorar, dizer que ele é um monstro. Ele destruiu a
família dele também.
Levantar
a cabeça e tocar a vida para frente. Só com a saudade, com as
lembranças boas dela. Levar a vida para frente. Eu não posso trazer ela
de volta. Ela está no cantinho dela, guardada. Tá com Jesus. Uma pessoa
que não tinha malícia, não tinha pecado – não teve nem tempo pra ter
pecado. Ela só pode estar no céu. Vou guardar as lembranças boas. Por
hora, queremos que o corpo seja liberado para que possamos dar um
enterro digno pra ela. Mas eu sei que ela está descansando e está em paz
onde ela está.

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