Por Anderson Barbosa - Mecanismo relatou sumiço de 71 detentos após rebeliões de janeiro. Agora, Estado afirma que 'não há presos com situação desconhecida', mas não detalha situação de cada um. Pai de presidiário ainda procura por ele.
O
governo do Rio Grande do Norte afirma que já tem informações sobre
todos os 71 presos de Alcaçuz apontados como ‘desaparecidos’ pelo
Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT) – órgão que
funciona em conjunto com o Ministério dos Direitos Humanos. No entanto, o
Estado não disponibilizou as informações sobre cada um deles: se foram
transferidos, se foram mortos na rebelião ou se fugiram. Passados cinco
meses da matança que aconteceu na unidade, o pai de um ex-lutador de
jiu-jitsu que cumpria pena por tráfico de drogas ainda não sabe onde o
filho está.
O relatório, que inclusive foi enviado a
órgãos internacionais, foi produzido em razão das rebeliões que
terminaram com 26 detentos mortos e 56 fugitivos. Dizia o documento:
“Como mencionado, há 71 pessoas que constam estar em Alcaçuz, mas que
não estão. Elas podem ter tido transferência não registrada,
fugas/recapturas não contabilizadas, ou óbitos não reconhecidos […]. É
possível que o número de mortes se aproxime à estimativa inicial, ou
seja, 90 mortos”.
Rebeliões em Alcaçuz terminaram com com 26 presos mortos (Foto: Divulgação/PM).
Guilherme Ely Figueiredo da Silva, de 36 anos, estava preso no pavilhão 4
de Alcaçuz quando estourou a rebelião. Foi quando o técnico em educação
Francisco Luiz recebeu uma ligação de dentro da penitenciária. “Um
colega de cela do meu filho disse que tinham matado ele. Mas, depois de
todo este tempo, o nome do meu filho não aprece na lista dos mortos e
nem dos que fugiram”, relata o pai.
Após a divulgação do relatório, em maio, a Secretaria de Justiça e da
Cidadania (Sejuc), pasta responsável pelo sistema prisional do estado,
contestou as informações do mecanismo e afirmou, na ocasião, que sabia onde estavam 60 dos 'desaparecidos', e que faltava localizar os 11 restantes, incluindo Guilherme.
Agora, em nota divulgada no final da tarde desta quarta (28), a Sejuc
afirmou que "não há nenhum preso (destes 71) com situação desconhecida".
"Então, onde está o meu filho?", questiona o pai de Guilherme.
"Sobre a situação do preso Guilherme Ely Figueiredo da Silva, a
Secretaria de Justiça e Cidadania informa que trabalha com a hipótese de
que sua identificação corresponda a um dos três corpos carbonizados,
provenientes das mortes, em janeiro, na Penitenciária de Alcaçuz e cujas
amostras se encontram em Salvador, no Instituto de Medicina Legal (IML)
da Bahia", respondeu a Sejuc.
Ainda segundo a secretaria, o nome de Guilherme não está na relação dos
11 que supostamente estariam desaparecidos de Alcaçuz, integrando uma
lista de 71, segundo relatório do Mecanismo Nacional de Prevenção e
Combate à Tortura (MNPCT). "A situação de todos esses 71 é de
conhecimento da Sejuc", reafirma.
Foto mostra os presos de facções rivais em confronto na penitenciária de Alcaçuz (Foto: Andressa Anholete/AFP)
Nada de DNA
Na tentativa de descobrir se o filho realmente havia sido assassinado, Francisco procurou o Instituto Técnico-Científico de Polícia (Itep), em Natal, para onde foram levados os corpos dos 26 presos mortos no massacre. A esperança é que o filho, naquele momento, fosse um dos quatro corpos que ainda aguardavam identificação. Três cadáveres, que permanecem nas geladeiras do Itep, foram encontrados completamente carbonizados e só podem ser identificados por meio de exames de DNA. Já o quarto, por não ter ninguém que o reclamasse, acabou sendo enterrado como indigente.
Na tentativa de descobrir se o filho realmente havia sido assassinado, Francisco procurou o Instituto Técnico-Científico de Polícia (Itep), em Natal, para onde foram levados os corpos dos 26 presos mortos no massacre. A esperança é que o filho, naquele momento, fosse um dos quatro corpos que ainda aguardavam identificação. Três cadáveres, que permanecem nas geladeiras do Itep, foram encontrados completamente carbonizados e só podem ser identificados por meio de exames de DNA. Já o quarto, por não ter ninguém que o reclamasse, acabou sendo enterrado como indigente.
“Nos prometeram que assim que mandassem as amostras de DNA para o
laboratório, eu seria chamado para coletar material para uma comparação
genética. Só que eu ainda estou esperando”, ressaltou o pai do preso
desaparecido. No dia 18 deste mês, o Itep mandou oito amostras para exames de DNA em
Salvador. O resultado deve ser divulgado após o retorno do material a
Natal, previsto para o dia 8 de julho. Mas, para a decepção do seu
Francisco, ele também não foi comunicado de nada disso. “Minha filha foi ao Itep também. Pegaram todos os nossos dados. Mas,
para que, se quando mandam fazer o DNA não nos chamam?”, lamentou.
No mês passado, fragmentos de ossos humanos foram descobertos enterrados em Alcaçuz.
Contudo, segundo a assessoria de comunicação do Itep, “não tinha
nenhuma família para confronto até então”, e que, “portanto”, amostras
desses fragmentos não foram levados para Salvador.
Mandado de prisão
A Justiça também quer saber onde está Guilherme. Inclusive, por não ter certeza se ele está vivo ou morto, mandou prendê-lo.
No dia 26 de maio, consta uma movimentação no site do Tribunal de
Justiça na qual a juíza Maria Nivalda Neco Torquato Lopes, titular da
comarca de Nísia Floresta, onde fica localizada a penitenciária de
Alcaçuz, destaca: “Verifica-se que o apenado não se encontra custodiado
em nenhuma das unidades prisionais deste Estado. Há, por outro lado,
informações de que o apenado pode ter morrido durante a rebelião
ocorrida em Alcaçuz, em janeiro de 2017.
Anoto, inclusive, que o genitor
do apenado já apresentou denúncia junto ao Ministério Público
competente, solicitando a abertura de procedimento para apurar eventual
morte de Guilherme Ely Figueiredo da Silva. De qualquer forma,
considerando que a pena imposta ao apenado é para cumprimento em regime
fechado, não estando custodiado, determino a imediata expedição de
mandado de prisão. Ademais, oficie-se ao Itep solicitando-se informações
sobre eventual identificação de corpo e/ou exame necroscópico do
apenado”.
A ordem para que o Itep ateste se Guilherme está morto foi registrada
no dia 13 deste mês. E o prazo dado foi de 5 dias. Até então, pelo que
consta no site do TJ, ainda não há qualquer resposta.

0 comments :
Postar um comentário