Extra Globo - Pelo menos cinco pessoas morreram durante a operação do Batalhão de
Operações Especiais (Bope) no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio,
que começou no início da manhã desta quinta-feira. De acordo com
informações do site G1, da TV Globo, a polícia informou que um dos
mortos não tinha antecedentes criminais e foi identificado como Wesley
de Lima Cardoso, que chegou a ser levado para o Hospital Getúlio Vargas,
mas não resistiu.
Há relatos de feridos que teriam sido socorridos por moradores e
levados para o Hospital estadual Getúlio Vargas. Ainda segundo a Polícia
Militar, um outro ferido está acautelado no Hospital Salgado Filho, no
Méier. Hugo Luiz Faria Santos, o HG, que tem dois mandados de prisão pendentes e
ficou preso no hospital, e Fábio Daniel Diomedes Ferreira, que não tem
antecedentes criminais.
Desde o início da manhã o Bope fez uma operação na comunidade, o que deu
início a uma intensa troca de tiros entre policiais e criminosos.
Segundo a PM, a ação foi desencadeada após ataques contra bases de
Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Um helicóptero da Polícia
Militar sobrevoa a comunidade.
De acordo com o Bope, durante a operação
foram apreendidos dois fuzis de calibres diferentes, 17 carregadores de
fuzil, um carregador de metralhadora, uma armação e um ferrolho de
fuzil, cinco rádios transmissores, 16 tabletes de pasta base de cocaína,
um saco de cerca de um quilo de pó branco, 34.980 pinos de cocaína, 905
trouxas de maconha, uma embalagem com 600 gramas de skank e 840 pedras
de crack. A ocorrência foi registrada na 45ª DP Complexo do Alemão.
PMs de uma das UPPs do Alemão Foto: Antonio Scorza / Agência O Globo.
No fim da manhã, cerca de 200 mototaxistas iniciaram um
protesto entorno do conjunto de favelas. Munidos de cartazes com dizeres
comparando a região com a Síria, que está em guerra, eles reclamaram da
violência policial, durante as operações na comunidade. Estamos sendo obrigados a enfrentar repetitivas operações policiais.
Quase todos os dias, sou despertado com o barulho dos confrontos entre
PMs e bandidos — disse um mototaxista de 31 anos, que não quis se
identificar.
Áudios obtidos pelo EXTRA mostram o
desespero de moradores do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio,
durante um intenso tiroteio entre policiais do Batalhão de Operações
Especiais (Bope) e traficantes. O confronto deixa mais de 1,6 mil
crianças sem aulas na região. Em meio ao barulho dos disparos, uma
mulher grita, desesperada, pedindo que alguém se esconda."Senta! Ai meu Deus, Senhor! Deita, deita! Saí daí! Deita no chão", diz
ela, que parece estar chorando. Em outro trecho, é possível ouvir
centenas de disparos.
Um comerciante de 50 anos, que mora há 30 na comunidade da
Fazendinha, no Alemão, disse que perdeu as esperanças de ver a paz
chegar à região:
Hoje é um dia que terei de dormir no
meu emprego. Se na parte da manhã e da tarde já é esse terror, à noite
isso aqui vira um inferno. A bandidagem brota de todos os lados. Queria
poder ter uma noite tranquila de sono, mas isso está longe da nossa
realidade.
Já uma dona de casa de 39 anos, mãe de um
casal de filhos de 10 e 8 anos, disse que já não sabe mais se as
crianças terão condições de passar de ano:
Esse tiroteio
é praticamente todo dia. Quando começa fico tão desesperada que mando
meus filhos se esconderem no banheiro. Não tem como mandá-los para o
colégio. O que revolta é que estamos numa guerra, mas os políticos
sorriem como se nada estivesse acontecendo.
Segundo moradores, pelo menos quatro pessoas foram baleadas
durante o confronto. A informação não foi oficialmente confirmada pela
Polícia Militar.
Eu estou em crise nervosa só de
imaginar o que pode vir por aí. Isso aqui é uma bomba-relógio, que vai
explodir a qualquer hora — disse um morador.
De acordo com ele, muitas pessoas estão deixando suas casas na comunidade:
Tem muita gente indo embora. Quem tem condições e outro lugar para ir
está abandonando tudo. Já quem não tem está jogado à própria sorte.
As cápsulas espalhadas numa das vielas do Alemão Foto: Foto do leitor.
Nos becos e vielas da comunidade, as marcas da violência:
fotos mostram centenas de cápsulas, principalmente de fuzil, espalhadas
no chão.
Desabafos nas redes sociais
Nas redes sociais, muitos também comentam a situação:
"Nossa
senhora e muito tirooooo. Aff, daqui da Castrol dar pra escutar. Só
Jesus na causa. E as crianças indo PRA escolas! #guerrasemfim". "Esta impossível levar as crianças para as escolas. Muitos sons de tiros". "É bem aqui na Rua 2. Sem poder levar meu filho pra escola. e o mas velho sem poder sair pra trabalhar, que tristeza".
Desde o final do mês passado o Complexo do Alemão vive dias
de violência. A rotina de tiroteios começou quando a Polícia Militar
iniciou uma operação para a instalação de uma torre blindada na Favela
Nova Brasília. Cinco pessoas morreram — uma delas apontada como suspeita
de tráfico e as demais, moradores do conjunto de favelas.
Mais de 1,5 mil sem aulas
Por
causa do tiroteio no Alemão. uma escola e cinco Espaços de
Desenvolvimento Infantil (EDIs) estão sem atendimento nesta quinta na
região. Segundo a Secretaria municipal de Educação, as unidades
escolares atendem a 1.683 alunos.
Moradores do Rio confundem tiros no Alemão com guerras
Equipes
do jornal comunitário "Voz das Comunidades" foram às ruas com gravações
de confrontos ocorridos na comunidade e pediram que algumas pessoas
ouvissem os sons dos disparos e tentassem identificar onde eles haviam
ocorrido. O trabalho foi batizado de "O som da guerra".
"Afeganistão", cravou uma uma mulher. "Iraque?", especulou uma jovem.
"Eu acho que é da Síria", disse uma terceira. "Síria e Afeganistão",
apostou um outro jovem.
Ao saberem que os tiros foram gravados no Alemão, as pessoas
se surpreendem. "A minha sensação é de que é uma guerra pobre", diz uma
mulher. Outra jovem resumiu o temor de muitos moradores da comunidade
em situações de confronto: "Para mim é assustador, na verdade, porque a
gente nunca sabe se pode ter atingido ou não".
Uma outra mulher diz que o sentimento ao saber da verdade é de tristeza: "Dá uma tristeza bem grande saber disso". "Imagino
o que deve ser você estar lá de boa jantando com seus filhos e aí do
nada tem que ir todo mundo para o chão.
Deve ser bizarro", afirma a
jovem que inicialmente havia pensado que os sons eram de conflitos no
Afeganistão ou na África.

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