No Brasil, o Ceará integrou o desenvolvimento das competências
emocionais à rotina escolar em 2012. A experiência ocorre em 160 das 700
unidades de educação. “Nós entendemos a importância desse aspecto
porque o aluno é um sujeito individual. É preciso entendê-lo,
respeitá-lo, saber seus pontos fracos e fortes para, a partir daí, ter
melhores resultados no desempenho escolar”, defende o secretário da
Educação do estado, Idilvan Alencar.
O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) está concluindo uma
avaliação da experiência cearense com competências emocionais nas
escolas estaduais de ensino médio. Os resultados preliminares demonstram
que os alunos tiveram bons desempenhos considerando somente um ano
letivo, Além disso, estudantes fora da faixa etária indicada para o ano
que cursam (mais suscetíveis a abandonar a escola) tiveram melhora na
aprendizagem de disciplinas tradicionais.
Expansão
A ideia de incluir competências socioemocionais entre as disciplinas
escolares faz parte da versão final da Base Nacional Comum Curricular,
que será usada em todo o país. Atualmente, além do Ceará, apenas Rio de
Janeiro e Espírito Santo aplicam essas competências no dia a dia dos
estudantes.
Segundo Tatiana, em uma pesquisa realizada pelo Instituto Ayrton
Senna em 2011, 79% de um universo de 3,7 mil diretores e professores
disseram que é papel da escola desenvolver competências emocionais. Para
ela, os impactos de que tratam a pesquisa do BID podem ser traduzidos
na redução de conflitos entre alunos, com destaque para os episódios de
bullying. “Não é só papel da família desenvolver competências emocionais,
porque a escola precisa compensar pelas desigualdades e precisamos dar
chance para todo mundo ter as mesmas oportunidades e condições”, explica
a diretora do edulab21.
Vida adulta
A falta de habilidades socioemocionais pode refletir-se na vida
profissional e social dos adultos. O pesquisador Oliver John, da
Universidade da Califórnia, em Berkeley, cita o caso da empresa de
energia Enron, protagonista de um escândalo de fraudes contábeis que a
levou à falência em 2001. “Eles tinham o único princípio de ‘quem for o mais esperto’ da sala
tem a maior quantidade de recursos, de funcionários, que trabalhariam
duro para ganhar muito dinheiro. Só que eles fizeram coisas terríveis:
mentiram, manipularam. O estado da Califórnia perdeu bilhões de dólares
por causa disso”, diz John.
“Em essência, se você não ensina as crianças de que é importante usar
a empatia e de que as pessoas têm o direito de serem respeitadas, você
terá uma sociedade em que as pessoas não cooperam, brigam, e não
trabalham juntas. Tudo vai por água abaixo, porque precisamos viver
juntos”, acrescenta.
O pesquisador menciona ainda o atual presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump, como alguém em que competências socioemocionais fazem
falta. Para ele, Trump incentiva o ódio nas pessoas ao hostilizar
imigrantes e ao pretender barrá-los com a construção de um muro entre o
país e o México. “Na minha perspectiva, ele é um ótimo exemplo de alguém que não
cresceu e não aprendeu algumas dessas competências emocionais. Há um
artigo recente que diz que os Estados Unidos são governados por um
garoto de 5 anos de idade.
A ideia é de que ele tem um tipo de
desenvolvimento social equivalente a alguém de 5 anos. Ele não entende
que o mundo é complexo e temos diferentes perspectivas”, analisa.
Desafios para o século 21
O diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, Mozart
Neves Ramos defende que complexidade da sociedade do século 21 torna a
enfatização das competências emocionais mais urgente nas escolas.
Segundo ele, essa não deve ser exatamente uma disciplina no currículo de
ensino, mas um assunto que permeia todo o dia a dia escolar, como o
planejamento de uma aula e até a arquitetura das salas de ensino.
“Essa educação para o século 21 não é nada mais do que colocar, de
maneira intencional na escola, o desenvolvimento dessas competências
para que crianças, jovens, professores e gestores possam se desenvolver
em sua plenitude e estejam preparados para essas mudanças tão bruscas
que estão acontecendo neste século. Com isso, essas pessoas podem ser
mais flexíveis e colaborativas”, diz.

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