Por: Cristina Vieira Coxim, MS - O uso de insetos na alimentação humana é uma realidade em muitos
países. Existe até uma recomendação da FAO, Organização das Nações
Unidas para Alimentação e Agricultura, para o consumo de insetos por se
tratar de uma rica fonte de proteínas. Esse tipo de consumo não está regulamentado no Brasil, mas já existem
pesquisas sobre o assunto. Um dos trabalhos está sendo desenvolvido em
Mato Grosso do Sul.
O professor, biólogo e agrônomo Ramon de Minas coordena no Instituto Federal de Mato Grosso do Sul, em Coxim,
uma pesquisa para explorar o potencial dos insetos na alimentação
humana. A intimidade com os bichos começou quando o professor trabalhava
no controle de pragas nas lavouras. “O interesse por alimentação surgiu depois que eu comecei a ler os
trabalhos e principalmente depois da resolução da ONU e da FAO que
indica que deve ser incorporado na alimentação humana devido a demanda
que vamos ter nos próximos anos”, diz Minas.
Os insetos são ricos, principalmente, em proteínas. Por exemplo: a cada
100 gramas de barata da espécie cinéria, 60 gramas são de proteína. Em
100 gramas de grilo há 48 de proteína. Já no caso de 100 gamas de boi ou
frango, há 20 gramas de proteína. E no porco são 18 gramas de proteína.
Mas os insetos precisam passar por um rígido controle de criação para
servir de alimento.
Entre os animais pesquisados está o tenébrio. Conhecido como besouro da
farinha, ele é considerado uma praga nos armazéns de grãos. No
laboratório, o tenébrio é usado na fase de larva, que, segundo o
professor, tem um sabor mais suave do que o besouro adulto. Os tenébrios
são criados no meio da ração, à base de trigo, milho, vitaminas e
minerais.
Já as baratas são criadas em caixas de ovos sobrepostas e amarradas com
barbante. A estrutura fica dentro de uma vasilha onde tem comida e água
à disposição. O professor trabalha com três espécies de baratas
caseiras, que as pessoas estão acostumadas a ver. Pelo menos duas vezes
por semana, as caixas onde elas são criadas passam por uma limpeza. No
mesmo sistema de produção das baratas estão os grilos. No Brasil, o uso de insetos na alimentação humana ainda não é
regulamentado pelo Ministério da Agricultura. Por isso, não há produção
comercial. Hoje, um quilo de barata pode custar até R$ 350,00.
Os insetos viram alimento de fato na cozinha experimental. Os insetos
ficam 48 horas só com água e sem comida, para que todos os excrementos
sejam eliminados. Depois desse processo, os bichos são abatidos. A morte
é feita por congelamento. Os insetos já mortos são fervidos e
desidratados em estufa.
Amostras dos insetos desidratados são trituradas
e viram uma farinha, que é analisada no laboratório de química. O
critério são as normas de qualidade exigidas nos alimentos em geral. Só
depois de aprovados no laboratório os insetos podem ser usados na
alimentação.
Em muitos países é comum comer insetos. A FAO, Organização das Nações
Unidas para Alimentação e Agricultura, estima que dois bilhões de
pessoas no mundo consomem algum tipo desses animais. Na Ásia, nos
Estados Unidos, os insetos estão no cardápio ou misturados a outros
alimentos. Em algumas partes do Brasil é comum comer bundinha da formiga tanajura,
a saúva ou um tipo de cupim. Ingredientes que hoje já são utilizados em
receitas de grandes chefes.
Os pesquisadores usam muita criatividade no Instituto Federal de Mato
Grosso do Sul. Os alunos do curso de tecnologia em alimentos preparam
uma série de pratos com insetos. No cardápio há pizza, hambúrguer, patê e
bolo. “No bolo nós utilizamos uma massa tradicional de bolo. A única
diferença é que nós vamos enriquecer com a farinha dos insetos, com
tenébrio, barata de Madagáscar e grilo triturados”, diz a aluna.
No patê, os insetos também vão em forma de farinha, mas no hambúrguer e
na pizza são usados inteiros. Os alunos vão se familiarizando aos
poucos com a ideia. A degustação faz parte das palestras do professor para a comunidade. A
plateia tem a chance de experimentar alguns insetos no auditório. No
final, é servido o banquete de insetos.

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