Um grupo de 150 cientistas e
especialistas em saúde de universidades de prestígio como Harvard,
Columbia e Zurique enviou uma carta aberta à Organização Mundial da
Saúde (OMS) instando-a a “reconsiderar” sua posição e assumir a postura
“ética” de recomendar o adiamento ou a mudança de local dos Jogos
Olímpicos previstos para agosto no Rio de Janeiro devido ao Zika vírus.
“A OMS deve avaliar a questão do Zika e
adiar ou mudar o lugar dos Jogos”, afirmam os signatários de uma “carta
aberta” dirigida à diretora-geral do organismo, Margaret Chan, com
“cópia” para o Comitê Olímpico Internacional (COI). Eles também pediram
que a OMS crie um grupo independente para assessorar de forma
“transparente” o COI sobre essa questão. Não fazê-lo seria
“irresponsável” tendo em vista as consequências “éticas e em matéria de
saúde pública” que implicaria, enfatizam.
A OMS rebateu o pedido, em nota, dizendo
que uma mudança não iria “alterar significativamente a disseminação
internacional do Zika vírus” e que “não há justificativa de saúde
pública para adiar ou cancelar os jogos”. “O Brasil é um dos quase 60
países e territórios que ainda reportam transmissão do Zika por
mosquitos. As pessoas continuam a viajar entre estes países e
territórios para uma variedade de motivos. A melhor maneira de reduzir o
risco de doença é seguir os conselhos de viagem de saúde pública”, diz a
organização, enumerando uma série de conselhos.
Os especialistas que fizeram o pedido de
adiamento dizem que, de acordo com os últimos testes, a cepa do Zika
vírus que afeta o Brasil tem consequências médicas mais graves do que se
acreditava até agora. O vírus, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti,
produz na maioria dos casos uma infecção leve, mas está vinculado à
microcefalia em bebês de mães infectadas e a outros distúrbios
neurológicos graves.
Com cerca de 26.000 casos notificados, o
Rio de Janeiro “é uma das áreas mais afetadas do país” pelo Zika,
lembram. Tudo isso torna “imperativo” que a OMS faça “uma nova avaliação
baseada em evidências do Zika e dos Jogos, assim como de suas
recomendações para os viajantes” reclamam. “Cria-se um risco desnecessário se for
permitido que 500.000 turistas estrangeiros de todos os países viajem
para assistir aos Jogos, adquiram potencialmente o vírus e voltem para
suas casas em lugares onde ele poderia se tornar endêmico”, insistem os
cientistas. Correr esse tipo de risco “não é ético”, advertem.
A carta foi escrita pelos professores
Amir Attaran, da Universidade de Ottawa; Christopher Gaffney, da
Universidade de Zurique e Arthur Caplan e Lee Igel, da Universidade de
Nova York. Os dois últimos já haviam feito um apelo
semelhante em fevereiro, num artigo publicado na revista Forbes. O
professor Attaran também escreveu na revista especializada em saúde
pública da Universidade de Harvard que o evento “pode acelerar a
propagação do vírus” e sugeriu que seja realizado em outra cidade
brasileira ou que seja adiado. As autoridades olímpicas e políticas não
cogitam essa possibilidade a menos de três meses dos Jogos, quando
esperam a visita de quase um milhão de turistas.
Até agora, a OMS tinha se limitado a
publicar um guia com recomendações para evitar contrair o Zika vírus
destinada a atletas, jornalistas e turistas que visitarão o Rio de
Janeiro durante os Jogos Olímpicos, em agosto, mas evitou dar o passo
pedido pelos signatários da carta. A opinião destes não é, além disso,
compartilhada por toda a comunidade científica. O diretor do Centro de
Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, Tom
Frieden, rejeitou a proposta esta semana.
“Não há nenhuma razão de saúde pública
para cancelar ou atrasar os Jogos”, disse ele numa conversa com
jornalistas em Washington. Conforme afirmou, o CDC estudou o impacto
potencial do fato de que tantas pessoas de tantos lugares diferentes
viajem para uma área com Zika vírus e o resultado não mudaria
substancialmente o risco de propagação geral desse vírus. “Viajar para
os Jogos representaria menos de 0,25% de todas as viagens que se
realizam às áreas afetadas pelo Zika”, explicou. “Assim, mesmo se fosse
decidido não realizar os Jogos, ainda continuaria existindo um risco de
99,75% que o Zika continue a se propagar”, acrescentou.
Mergulhado numa grave crise política, o
Governo brasileiro, interinamente nas mãos de Michel Temer, dedicou
pouco tempo nas últimas semanas a falar sobre os Jogos. As autoridades
do Rio repetem que a cidade está preparada.

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