Ana Maria Laurindo tem 45 anos, e há quase 10 é mantida isolada em uma
das celas do pavilhão feminino do Complexo Penal João Chaves, na Zona
Norte de Natal (Foto: Reprodução/Inter TV Cabugi.
O sistema penitenciário do Rio Grande do Norte
não dispõe de unidades adequadas para o acolhimento de criminosas
consideradas inimputáveis, ou seja, não possui nem mantém um local para
que as mulheres acometidas de alguma doença psíquica, desenvolvimento
incompleto ou retardado intelectual, cumpram adequadamente as medidas de
segurança impostas pela Justiça. É o caso de Ana Maria Laurindo. Ela,
que tem 45 anos, há quase 10 é mantida isolada em uma das celas do
pavilhão feminino do Complexo Penal João Chaves, na Zona Norte de Natal. Superlotada, a unidade mantém 90 mulheres em um espaço construído para receber no máximo 70.
“A Ana Maria ocupa uma cela sozinha.
Isso para nós é um incômodo, porque poderíamos receber outras detentas
já condenadas pela Justiça. Mas, como ela não tem para onde ir, fica
aqui em um espaço que poderia ser utilizado por outras seis ou até sete
internas”, observou a agente penitenciária Pascoaliana de Souza Alves,
diretora do pavilhão.
A assessoria de imprensa da Secretaria
de Justiça e da Cidadania (Sejuc), pasta responsável pelas unidades
prisionais, informou que o órgão está providenciando um local adequado
para a detenta, e garantiu que ela recebe todos os cuidados necessários
com medicamentos e assistência médica.
A Sejuc informou também que, depois das
rebeliões de março, a recuperação das unidades é a prioridade, até
porque a demanda de presas com problemas mentais não é tão grande. Ainda
segundo a secretaria, no pavilhão feminino do Complexo Penal João
Chaves, por exemplo, são duas apenadas nessa situação.
Ana Maria tem 45 anos. Em 2004 ela matou
o próprio pai com mais de 40 facadas. A mulher chegou ao pavilhão
feminino dois anos depois, e desde então o único tratamento que recebe
são doses diárias de Zyprexa e Seroquel, medicamentos indicados para
esquizofrenia, e os também antipsicóticos Olanzapina e Risperidona,
administrados para que ela não machuque outras pessoas nem atente contra
a própria vida. “Se ficar sem tomar os remédios ela
enlouquece, fica batendo com a cabeça nas grades, nas paredes, e ninguém
consegue segurá-la”, relatou uma das presas da unidade. “Ano passado,
Ana Maria foi encaminhada para o Hospital Psiquiátrico João Machado, mas
foi devolvida porque quebrou o braço de um enfermeiro”, acrescentou o
juiz Henrique Baltazar, da vara de Execuções Penais de Natal.
Sem família, sem liberdade
Além do pavilhão feminino, Henrique Baltazar ainda visitou a Unidade Psiquiátrica de Custódia e Tratamento (UPCT), que também faz parte do Complexo Penal João Chaves. A unidade, que é exclusivamente masculina, possui 45 vagas e mantém 45 presos. Como a maioria dos alojamentos (como são chamadas as celas) são individuais, e os internos precisam ser mantidos isolados, não há superlotação. Lá, o problema é outro: os presos não saem. Sem acompanhamento médico, a maioria não evolui. E sem melhora, a medida de segurança é renovada.
Além do pavilhão feminino, Henrique Baltazar ainda visitou a Unidade Psiquiátrica de Custódia e Tratamento (UPCT), que também faz parte do Complexo Penal João Chaves. A unidade, que é exclusivamente masculina, possui 45 vagas e mantém 45 presos. Como a maioria dos alojamentos (como são chamadas as celas) são individuais, e os internos precisam ser mantidos isolados, não há superlotação. Lá, o problema é outro: os presos não saem. Sem acompanhamento médico, a maioria não evolui. E sem melhora, a medida de segurança é renovada.
“Falta uma equipe técnica adequada para
acompanhar os doentes. Os internos não têm laborterapia, não têm o
tratamento que deveria ter. É basicamente medicamentoso. Outro problema
muito sério são os laudos que são feitos pelo Itep (Instituto
Técnico-Científico de Polícia), que só tem um psiquiatra para atender a
todo o estado. Então ele não consegue se dedicar aos inimputáveis que
estão aqui no UPCT o tempo que seria necessário. Então o médico faz um
laudo com base numa avaliação superficial, rápida. E como a unidade não
tem uma equipe técnica completa, não há subsídios suficientes para que
este médico possa trabalhar. É esta falta de pessoal, dessa equipe
técnica fazendo este trabalho, que está resultando nesta situação”,
observou o magistrado. “E nós também não vemos uma melhoria na saúde
destes internos porque o tratamento é simplesmente feito à base de
remédio, medicamentoso. Não tem laborterapia, nenhum tipo de terapia, na
verdade, que possa conduzi-los de volta ao convívio da sociedade”,
acrescentou Baltazar.
E ainda há casos de internos que não
deixam a unidade porque não têm para onde ir. É o caso de João Batista
Ferreira da Costa, de 48 anos, que é natural de São Gonçalo do Amarante.
Faz um ano e meio que ele foi considerado apto para retornar a uma
convivência social, mas sem família e sem ninguém que o acolha, ele
permanece ocupando um dos alojamentos. João está no UPCT desde 2009. “O
crime ele cometeu em 2000, quando derrubou a porta de uma casa, invadiu o
imóvel e matou um homem a pauladas. Isso foi em Imperatriz, no
Maranhão”, contou o juiz.
“Eu já autorizei a liberdade dele. A
perícia médica atestou que João não oferece mais perigo para a
sociedade. E como a medida de segurança acabou, ele precisa sair da
unidade. Ele está oficialmente desinternado desde janeiro de 2014, mas
continua encarcerado”, ressaltou o juiz.
De acordo com Juliane de Souza Soares,
vice-diretora da UPCT, a estrutura física é atualmente o maior problema
da unidade. “Os banheiros são horríveis, assim como o alojamento dos
agentes, que precisa de uma reforma”, afirmou. No banheiro masculino, o
espaço de um dos vasos sanitários virou depósito para ferramentas e
material de limpeza. No feminino, duas das três pias não têm torneiras.
Já no alojamento, as paredes carecem de pintura, os beliches são velhos e
os colchões estão mofados. “E ainda tem um problema sério que é a falta
d’água, que é constante”, frisou Juliane. “Quando falta, é um
transtorno. E quando tem, também é um problema. Se abrirmos as torneiras
para a água subir para os corredores dos alojamentos, tem um sumidouro
aqui que começa a feder e ninguém aguenta o mau cheiro”, acrescentou.
G1/RN

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