Os
pontos centrais defendidos por mais de 100 entidades e movimentos da
sociedade civil para a reforma política não entraram no texto aprovado
pela Câmara, nesta semana. Instituições como a Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Central
Única dos Trabalhadores (CUT) e o Movimento de Combate à Corrupção
Eleitoral (MCCE) queriam mudanças, principalmente do sistema eleitoral e
do financiamento de campanha, mas não conseguiram emplacar suas
propostas.
Na votação, os deputados mantiveram o sistema proporcional em que
deputados e vereadores são eleitos de acordo com a votação do partido ou
da coligação. Já os integrantes do movimento conhecido como Coalizão
pela Reforma Política queriam eleições em dois turnos, para que os
eleitores pudessem votar primeiro nos partidos e definir o número de
cadeiras destinadas a cada legenda, e só depois escolherem os
candidatos.
O modelo sequer foi analisado pelos parlamentares, que discutiram
alternativas como o distritão – em que seriam eleitos os deputados e
vereadores mais votados no estado, em sistema majoritário –, a lista
fechada – com indicação dos candidatos pelo partido – e o distrital
misto, para que 50% dos deputados e vereadores fossem eleitos por lista e
outra metade entre os mais votados em cada distrito.
A Coalizão pela Reforma Política também não conseguiu convencer os
parlamentares a alterar o modelo de financiamento de campanha.
“Defendemos um modelo misto, com financiamento público e em que o
cidadão participe com doações limitadas a até R$ 700 por pessoa, para
evitar que alguém se transforme em padrinho de campanha, e que não
houvesse doações de empresas”, explicou o juiz maranhense. A seu ver
“não houve reforma alguma”.
No texto aprovado em primeiro turno pela Câmara, as doações de
empresas só podem ser feitas aos partidos e não mais aos candidatos. As
pessoas físicas podem doar à legenda e ao candidato. Também foi mantida a
distribuição de recursos do fundo partidário. Para o analista político
Antônio Augusto Queiroz , diretor do Departamento Intersindical de
Assessoria Parlamentar (Diap), a restrição às doações de pessoas
jurídicas não produz mudanças. “Os partidos têm autonomia administrativa
e orçamentária que o Estado não controla.
Ele pode canalizar para o
candidato que desejar os recursos, pode priorizar alguns candidatos, do
modo como foi feito, sem estabelecer regra de que o que for arrecadado
vai ser distribuído linearmente entre todos os candidatos”, avaliou. Queiroz disse que os deputados não avançaram nos três pilares básicos
da reforma política. “Não aprovaram mudanças no financiamento de
campanha, que ajuda a moralizar e diminuir a corrupção na política; no
sistema eleitoral de lista fechada, que viria na perspectiva de
fortalecer ideias e partidos e com o fim de coligação que reduz o número
de partidos”.
Para ele, a manutenção das coligações com liberdade plena
para os partidos, como ficou no texto final é “um deboche” com o
eleitor que vota em um candidato e acaba ajudando a eleger outros que
não têm qualquer identidade ideológica.
“Coligação só faz sentido se tiver identidade programática. O correto
seria instituir a federação de partidos para que os que se coligarem
para a eleição fiquem juntos durante todo o mandato”, explicou. Os
deputados, no entanto, rejeitaram essa proposta.
O analista político também critica o fim da reeleição. Ele considera
que os mandatos são muito curtos para uma administração apenas. “Você
pode aperfeiçoar o sistema determinando que quem for concorrer à
reeleição se licencie nos seis meses que antecede a votação e retire a
influência”. Ele acrescentou que a cláusula de barreira, instituída pela
Câmara, “tem como único objetivo impedir que partidos pequenos se
manifestem.”
O texto estabelece que só terão acesso aos recursos do fundo
partidário e ao tempo de rádio e televisão os partidos que tiverem pelo
menos um candidato à Câmara dos Deputados e um parlamentar eleito para a
Câmara ou para o Senado.
A matéria ainda precisa passar por um segundo turno de votações na
Câmara. Se aprovada, segue para avaliação do Senado. “Os senadores
seguramente farão mudanças”, aposta Queiroz. O que for acatado pode ser
promulgado imediatamente e os pontos que sofrerem alterações voltam à
Câmara para nova votação.
Agência Brasil
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