E o fez, segundo ela, sem qualquer
autocrítica. Por isso, afirmou a ex-senadora, a sociedade se sente
ludibriada e indignada. Para ela, essa é a explicação dos panelaços e
protestos que assombram a presidente Dilma Rousseff e o PT. Ao falar ao
Blog sobre a conjuntura política, Marina se disse preocupada com a
gravidade da crise econômica e política. Ela defende uma reforma
política, mas alerta que não é preciso mudar leis para saber que “não se
pode mentir nem caluniar” numa eleição.
Blog – Como a senhora viu os repetidos panelaços e as manifestações contra o governo?
Marina
Silva – A sociedade quer mudanças. O professor Eduardo Viola [cientista
político] diz que 20% da população do planeta tem uma propensão
reformadora. É um fenômeno mundial e no Brasil não é diferente. Após a
reconquista da democracia, da estabilidade econômica e com o início de
um processo de inclusão social, vivemos a sensação de que estávamos
começando a entrar nos trilhos. Houve até uma certa acomodação dos
movimentos que pressionavam na busca por essas mudanças, como
sindicatos, ONGs e partidos progressistas. Mas permaneceu, ao menos, uma
tensão latente desses 20% que anseiam por reformas e foi isso que veio à
tona em 2013, quando milhões de pessoas se mobilizaram. Uma faísca
inicial, mínima, com a questão das tarifas de ônibus e do passe livre,
logo se transformou numa grande demanda por melhoria do país. Aquele
movimento arrefeceu, pela violência da polícia, como diz o Luiz Eduardo
Soares, e do impacto causado pelos black blocks. Restou a esperança de
fazer a mudança aproveitando as eleições. Mas veio então a violência do
marketing selvagem, das estruturas e do poder econômico, da mentira e da
calúnia, do rompimento de qualquer limite ético para ganhar uma
eleição. E essa busca de mudança foi, mais uma vez, obrigada a refluir.
As manifestações que têm ocorrido agora são uma retomada das
mobilizações anteriores, mas com um sentimento de revolta especialmente
dirigido contra o governo. Por um motivo simples: o que ele está fazendo
não é o que foi prometido na campanha. Há uma parte da sociedade
indignada, porque sabia que o país já estava em crise e viu a realidade
ser falseada pela candidatura da situação. Mas há outra parcela que está
se sentindo ludibriada, os que votaram em quem venceu agora veem que
foram enganados. Essa indignação reativa um movimento que é muito mais
amplo do que uma simples oposição ao governo. Vem de um desejo de
mudança horizontalmente disseminado na sociedade, e não dirigido pelos
partidos, sindicatos, ou lideranças carismáticas. É uma força que
precisa ser considerada e entendida para se dar a resposta certa.
Blog – A senhora acredita que esse “ludibriar” da campanha é o que fortaleceu a ideia do impeachment?
Marina Silva – Sim, sem dúvida, o sentimento de ter sido enganado faz
até com que pessoas que apoiam o governo já não o façam com a mesma
convicção. Mas há outros aspectos a serem considerados. Este é um
governo que está sucedendo a si mesmo. Já são 12 anos com o PT. Há um
visível fastio da repetição do discurso, da repetição do modus operandi,
de justificativas que já não justificam e explicações que já não
explicam. E, principalmente, há a reincidência escandalosa da corrupção.
Quando as pessoas defendem impeachment, estão propondo uma saída
constitucional, elas querem manter a legalidade. Obviamente, para que
ocorra um impeachment é preciso ter provas de envolvimento direto do
presidente da República. Se não for dentro da legalidade, o efeito pode
ser aprofundar o caos.
Blog – Como a senhora vê, depois de todo aquele discurso da campanha contrária a algumas medidas, o ajuste fiscal?
Marina Silva – Talvez a mudança de discurso sofresse rejeição menor se
houvesse, por parte do governo, um mínimo de autocrítica, um
reconhecimento de que cometeu erros. E um diálogo aberto, inclusive com a
oposição, sobre como as medidas imediatas se inserem numa agenda
estratégica. Porque é preciso fazer ajustes, como o fiscal, sem perder a
noção das necessidades sociais. É preciso retomar o investimento e
manter as conquistas sociais, essa é uma equação que tem que fechar.
Para isso, o governo precisa dar o exemplo. Por que se apela para que a
sociedade faça sacrifícios e o governo não faz sacrifício nenhum,
continua com 39 ministérios e milhares de cargos comissionados? E ainda
apoiou o escandaloso aumento do fundo partidário. O governo disse que
estava fazendo tudo certo, culpou agentes externos pela crise e agora
transfere a conta para o cidadão. A estratégia da presidente Dilma é
muito diferente da que foi usada pelo ex-presidente Lula. Para ganhar a
eleição, em 2002, Lula assumiu claramente o compromisso de manter a
política macroeconômica do governo tucano. Contou com a ajuda de
Fernando Henrique para fazer a transição. O ministro [Antonio] Palocci
teve apoio de pessoas que ajudaram no Plano Real, como Marcos Lisboa,
Murilo Portugal, Bernardo Appy e o próprio Joaquim Levy. Foi assumido um
compromisso público. Já a presidente Dilma negou veementemente a
necessidade de qualquer ajuste, negou até que houvesse algum problema.
Não revelou o receituário para enfrentar a crise, nem sequer exibiu o
prontuário do paciente. Depois, mal havia tomado as primeiras medidas,
já disse que talvez tivesse errado na dose. Ela não errou na dose –
trocou o frasco do remédio. Dizia que o paciente estava com dor de
cabeça e precisava de analgésico e agora quer convencer o paciente a
tomar morfina. Se tivesse revelado à sociedade a natureza e a gravidade
do problema, talvez nem precisasse da dose que está sendo dada agora. A
falta de credibilidade faz com que as medidas sejam mais duras, mais
dramáticas.
Blog – A situação econômica é difícil, há uma crise política. As
coisas estão interligadas. Conhecendo a política brasileira como
conhece, a senhora não vê esse desgaste político um pouco fora do tom
normal?
Marina Silva – Desde 2010 eu venho dizendo que a maior ameaça às
conquistas aí incluindo o próprio aprofundamento da democracia, além
da estabilidade econômica e a inclusão social– era o atraso na política.
Hoje nós temos a demonstração disso. Há um completo descrédito dos
partidos, um desgaste profundo do governo já no início do mandato, uma
falta de perspectiva e de melhoras no futuro. A maioria dos partidos
políticos já não discute ideias e propostas, são apenas máquinas para
ganhar tempo de televisão, dinheiro e estrutura para dar sustentação aos
projetos de poder apropriando-se do estado. Predomina a mentalidade de
fulanizar as conquistas, ao invés de institucionalizá-las, como se o
Plano Real pertencesse ao PSDB e ao Fernando Henrique e os programas
sociais pertencessem ao PT e ao Lula, como se não fossem conquistas da
sociedade brasileira. Esse patrimonialismo que nega as conquistas da
sociedade e se apropria do aparelho do Estado é o principal atraso da
política. Se eu tenho um projeto maravilhoso para a sociedade, mas que
só funciona comigo no governo, alguma coisa está errada.
Blog – Qual a relação desse desgaste com a campanha petista durante a ultima eleição?
Marina Silva – O modo como se ganha é o modo como se governa. E está
provado que é possível ganhar perdendo. O problema é que o país é quem
perde mais, pois é lançado no meio de uma crise de valores, num
retrocesso que só parece se aprofundar. Precisamos de uma reforma
política de verdade, que ajude a melhorar a qualidade das instituições
políticas, criando mecanismos que elevem a qualidade da representação e
mantenham um ambiente democrático na disputa eleitoral. Agora, tem um
aspecto que não depende de reforma política. Eu não preciso de nenhuma
lei para saber que não devo mentir, caluniar e atacar meus adversários
de forma desleal. Isso não é apenas uma ética pessoal, é parte essencial
do contrato social. A reforma política é importante para decidir, por
exemplo, como acabar com o abuso do poder econômico no financiamento das
campanhas. Mas algumas propostas visam apenas fortalecer as atuais
oligarquias partidárias, concentrando nelas as prerrogativas da decisão.
Isso é uma contradição, num momento em que a sociedade não se
identifica com os partidos, há projetos que querem dar mais poder aos
partidos. Eu defendo que as campanhas recebam financiamento público e
financiamento de pessoas físicas com teto para doações, com a
possibilidade de haver candidaturas independentes. E quando eu digo
independentes não é simplesmente um candidato de si mesmo. É uma
candidatura que apresente um programa, com uma lista de pessoas
endossando esse projeto. Por que tem que haver a chancela de um partido?
Seria bom criar uma concorrência idônea aos próprios partidos, quem
sabe assim eles melhorem. Não é para ser contra os partidos, é para que,
tendo a possibilidade de buscar na sociedade novos quadros, os partidos
não fiquem tão acomodados por terem o da política institucional para
defender seus próprios interesses, para que eles precisem competir com
aqueles que vem diretamente pelas mãos da sociedade.
Blog – Uma candidatura independente sobreviveria a uma campanha hostil como foi a de 2014?
Marina Silva – É preciso ter regras que assegurem uma ambiência
favorável, um acesso democrático aos meios, por exemplo o tempo de
televisão, para que haja expressão das propostas. Em alguns países isso é
possível. Aqui são criadas camisas de força para impedir a expressão da
sociedade. É doloroso lembrar que no fim da ditadura foram criadas as
condições para surgir o PT e hoje, na democracia, não conseguimos
registrar a Rede Sustentabilidade. Há todo tipo de manobra, desde uma
ação nos cartórios para anular as nossas fichas até tentativas de mudar a
lei, como agora, para quem é filiado de um partido não poder endossar a
criação de outro partido e a triplicação do número de assinaturas
necessárias para a criação. Medidas dificultam o ingresso de
parlamentares, negam tempo de propaganda e fundo partidário, uma
incessante maquinação de detalhes para dificultar a renovação do
processo político.
Blog – Como está a Rede?
Marina Silva – Nós estamos agora com cerca de 80 mil assinaturas nos
cartórios aguardando as certificações, para juntar às que já foram
colhidas em 2013 e vamos encaminhar o registro da Rede. Estamos sofrendo
as consequências das mudanças que foram feitas de encomenda contra nós
após a criação do PROS e do Solidariedade. Agora, mais uma vez, vamos
depender da demora dos cartórios para apresentar novamente as fichas e
reabrir o processo do nosso registro.
Blog – Qual o futuro para Marina agora?
Marina – Eu costumo dizer a mesma coisa que eu disse em 2010: não vou
ficar na cadeira cativa de candidata. E se eu tivesse apegada à ideia de
ser candidata, não teria enxergado o Eduardo Campos como alternativa em
2013, quando foi negado o registro da Rede. Teria ido para um dos
partidos que, generosamente, como o PPS, estavam me acolhendo para uma
filiação temporária e me possibilitariam ser candidata. Apoiar o Eduardo
Campos, para mim, era muito mais do que compartilhar um palanque, era
compartilhar um legado, e isso é parte do realinhamento político que eu
vinha propondo, para estabelecer uma governabilidade com base em um
programa, para criar um novo relacionamento entre os partidos que
deveriam ter renovado a República e se deixarem estagnar em alianças com
a Velha República. Agora eu vou fazer a mesma coisa: continuar
contribuindo sem ter necessariamente que ficar na condição de candidata.
Meu desejo é debater alternativas para esse momento de extrema
dificuldade que o pais está atravessando. Quanto ao futuro, como posso
oferecer a melhor contribuição? É mesmo na política institucional,
participando de eleições? É nos movimentos da sociedade? Obviamente,
ainda não tenho essa resposta, nem preciso ter. Há tempo para tudo sobre
a Terra.
Do G1

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