Moradora de Itapetininga conta drama: 'Transformou-me na mulher dele'.
Ela superou os obstáculos e obteve casa própria e estabilidade
financeira.
A transexual Nilce Clayr, de 45 anos, superou a infância traumática em
Itapetininga (SP) e se tornou uma marceneira empresária bem-sucedida.
Ela, que sofreu abuso quando criança, afirma que se dedicou muito para
se manter em uma profissão tão masculina. “Fui abusada dos 9 aos 15 anos
pelo meu próprio pai. Ele chegou a comprar uma cama de casal para que
eu dormisse com ele no quarto, enquanto minhas duas irmãs dormiam em
outro. Transformou-me na mulher dele depois que minha mãe saiu de casa
para se prostituir, quando eu tinha 8 anos.”
Apesar das dificuldades encontradas logo cedo, a transexual encontrou na
marcenaria, trabalho pesado que dá pouco espaço à feminilidade, uma
oportunidade para ter uma vida confortável. Hoje, 23 anos depois de
iniciar a carreira, tem o seu próprio negócio, comprou casa própria,
carro e tem uma clientela fiel que só elogia o seu trabalho.
“Fui expulsa de casa no meu aniversário de 18 anos porque desde os 15
recusava a ter relações com meu pai, quando descobri que era errado.
Apanhei bastante nesses três anos porque ele ‘bebia’. Quando atingi a
maioridade, ele me disse que não tinha mais nenhuma responsabilidade.
Fui embora levando só um colchão e fiquei em um cortiço onde dividia um
único banheiro com oito famílias", afirmou Nilce.
Para sobreviver, ela fazia bicos até conseguir um emprego em uma
indústria da cidade. "Dois anos depois as coisas começaram a melhorar,
mas quando comecei a tomar hormônios e ter seios, fui demitida da
indústria, provavelmente pelo preconceito. Foi aí que surgiu a
marcenaria na minha vida: trabalhei sem salário na oficina de um amigo
por dois anos. Desde então nunca mais parei, amo o que faço e trabalho
com muita honra”, conta a empresária.
Os obstáculos hoje em dia só valorizam as conquistas da marceneira, que
tem clientes em toda região de Itapetininga. “Minha agenda sempre está
lotada. Não tem faltado serviço, pois sempre quando acabo um, aparece
outro. Sou muito cuidadosa, nunca me machuquei trabalhando em todos
esses anos", conta.
Apesar das dificuldades, Nilce diz que ainda tem vantagens por ser
transexual. "É que as mulheres confiam mais em mim ao pedir um serviço
do que se fosse para um homem, pois elas dizem que ficam mais à vontade.
Aliás, nunca sofri preconceito por parte dos meus clientes.”
Trabalho árduo
Na
oficina em que trabalha, ela confecciona móveis e peças de madeira de
todos os tipos. Conhece todas as máquinas com detalhes, e por meio delas
já chegou a criar peças maiores, como um closet de cinco metros de
largura por 2,75 metros de altura.
“Todos nós temos capacidade. Fico indignada quando transexuais dizem que
não tiveram oportunidade e que a única saída é a rua, a prostituição.
Elas não tiveram oportunidades porque não buscaram a qualificação. Não
ganhei um curso para aprender marcenaria, mas eu fui atrás dessa
oportunidade.
Há muitas transexuais que reclamam do preconceito, mas se ficar andando pelada pela rua, mexendo com os outros e fazendo escândalo, ninguém irá te respeitar. Aqui no meu bairro saio na rua do jeito que for e ninguém me fala nada, pois não dou motivo e me dou ao respeito”, exclama a empresária.
Se a vida financeira anda bem, o lado pessoal, infelizmente, não. Nilce
terminou recentemente um relacionamento de 16 anos. Solteira, agora ela
está se recuperando da separação. Diz que não tem mágoa de ninguém, nem
mesmo do pai que a abusou e da mãe que a abandonou. “Voltei a ter
contato com meu pai quando ainda era vivo e o perdoei pelo que fez. Ele
não tem culpa de eu ter me tornado transexual, pois nasci mulher em
corpo de homem. Claro que não queria que minha primeira vez fosse com
ele, mas são coisas do passado. Também perdoei minha mãe, pois ela foi
embora também porque sofria, apanhava muito de meu pai."
Por Caio Gomes Silveira para o G1

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