Especialista em habitação social, Héctor Vigliecca critica programas de
moradia que criam "depósitos de prédios" afastados do centro das
cidades. Tal separação incentiva confronto de classes, afirma em
entrevista à DW.
Para Héctor Vigliecca, arquiteto e especialista em habitação social,
alguns programas de moradia, como o "Minha Casa, Minha Vida", acabam
gerando ainda mais exclusão. O poder público constrói "depósitos de
prédios", com o objetivo de atingir metas numéricas, mas sem se
preocupar com estruturas que promovam a cidadania, afirma.
"Quando damos uma casa que dificulta o transporte, o acesso aos centros
culturais, praticamente excluímos esses grandes bairros de habitação do
valor da cidade", disse em entrevista à DW Brasil. "Isso vai nos custar
muito caro no futuro, porque essa separação é o estopim de um confronto
de classes."
Conhecido por seus projetos de urbanização e habitação em favelas, o
arquiteto uruguaio vive no Brasil desde 1975. Nesta quinta-feira
(23/04), ele lança em São Paulo o livro O Terceiro Território Habitação
Coletiva e Cidade, que reúne seus trabalhos na área de habitação social.
Vigliecca busca conectar as comunidades, social e geograficamente
excluídas, com a cidade formal. Para isso, religa vielas sem saída, abre
novas ruas e instala elevadores sociais para melhorar a circulação. Seu
trabalho inclui desde a drenagem de terrenos até a definição de locais
para instalação de serviços públicos, bem como a criação de parques,
prédios e pontes que se integrem à favela.
Atualmente, o arquiteto realiza projetos como parte dos programas
municipais Renova SP (Morro do S4, São Paulo) e Morar Carioca (Morro dos
Macacos, Rio de Janeiro).
DW Brasil: O que significa fazer boa arquitetura na favela?
Héctor Vigliecca: A favela é uma área excluída por várias razões, uma
delas é a distância das vantagens da cidade tradicional. Isso não é
fácil de corrigir, mas podemos melhorar essa condição. Primeiro, criamos
um sistema viário, de conexão e mobilidade, que seja legível, o que é
uma condição importante da cidadania. Depois, inserimos elementos novos,
de maneira a não excluir o existente, mas coincidir amigavelmente com a
favela, compondo o que chamamos de terceiro território.
É comum ver ações do Estado, antigas, em que se cometia um erro: as
intervenções produziam uma exclusão da exclusão. A ação pública pega um
terreno afastado e faz um depósito de prédios. Nós tentamos fazer o
contrário, inserir elementos de urbanidade, que transformem aquela área
em cidade, para que o habitante perceba que ele não é um excluído. Nós
chamamos isso de urbanidade por infiltração.
Ainda se faz muito esse tipo de intervenção excludente?
Sim, lamentavelmente se faz isso no maior plano de habitação que o
Brasil conhece, o "Minha Casa, Minha Vida". Mas, a partir dos anos 1980,
houve uma mudança significativa, e as prefeituras começaram a entender
que a boa arquitetura e o bom urbanismo são fundamentais. E, além disso,
trazem votos. A comunidade assume o projeto, se identifica e se sente
valorizada.
Então, o "Minha Casa, Minha vida" está baseado num modelo ultrapassado?
Não é ultrapassado, é um problema mais filosófico. Eles destinaram
dinheiro para conseguir apenas uma quantidade, mas nós não transformamos
o déficit habitacional do Brasil apenas atingindo um número. Temos que
transformar as cidades.
O senhor pode dar algum exemplo?
Tem alguns exemplos desastrosos... Fazem enormes conjuntos
habitacionais, que custam uma quantidade de dinheiro impressionante. Mas
não basta dar uma casa, tem que dar cidadania. E isso abrange outros
tipos de condicionantes na hora de projetar. Quando damos uma casa que
dificulta o transporte, dificulta chegar aos centros culturais, onde
está o comércio e o lazer, praticamente excluímos esses grandes bairros
de habitação do valor da cidade. Isso vai nos custar muito caro no
futuro, porque essa separação é o estopim de um confronto de classes.
Então, houve mais avanços na esfera municipal?
Sim, em algumas prefeituras. As próprias escolas de arquitetura
começaram a incluir a questão das periferias como um tema de trabalho
apenas nos 1970 e 1980. Antes era um assunto de política e sociologia.
Eu discordava disso, era como se os arquitetos não tivessem nada para
contribuir. E os arquitetos têm muito para contribuir.
Como se traduz, na prática, a sua arquitetura nas favelas?
Não há fórmulas fixas, porque uma favela em São Paulo é diametralmente
oposta a uma no Rio de Janeiro ou em Salvador. Há favelas que estão
incrustadas nos centros históricos, dentro da cidade. Então, é
diferente, essa favela tem transporte público, hospital, tudo. Elas
estão excluídas? Sim, mas do âmbito urbano, o que não é mensurável.
Paraisópolis [em São Paulo], por exemplo, tem transporte interno
próprio, televisão e rádio locais, mas você entra lá dentro e está em
outro lugar, não na cidade formal.
Como essa experiência pode ser aplicada em outras cidades do mundo?
Todas as cidades têm áreas críticas. Paris e Madri têm, por exemplo. Não
se compara à América Latina, em termos de escala, mas há sempre essa
problemática dos guetos raciais. Mesmo assim, não há uma solução única.
Cada caso precisa de uma reflexão própria.
O Povo

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