Alberto Nájar e Juan Paullier Da BBC Mundo, na Cidade do México PGJDF Divulgação.
Durante dois anos, ela ficou acorrentada pelo pescoço e foi obrigada a
passar roupas dia e noite. Agora que foi libertada da escravidão em uma
tinturaria na Cidade do México, pede para ser chamada de Zunduri, nome
com o qual pretende refazer sua vida.
A jovem sofreu violência física, queimaduras com o ferro de passar, foi mal alimentada e frequentemente ficava sem dormir.
A Justiça mexicana diz que os principais suspeitos são os membros da
família que a mantinha em cativeiro, ainda que os mau-tratos mais graves
tenham vindo da dona da tinturaria, identificada pelas autoridades como
Leticia Molina Ochoa.
"Me batiam feio", disse Zunudi à rede de TV mexicana Televisa. "Chegavam
a me bater com paus, ferros, com o que tivessem nas mãos. Havia dias em
que não dormia, ficava acordada para seguir trabalhando."
Zunduri fará 23 anos no mês que vem, mas os exames médicos dizem que
seus órgãos passaram pelo mesmo desgaste de uma pessoa de 80 anos.
Na semana passada, ela aproveitou um descuido dos captores e escapou.
Uma amiga a ajudou a denunciar o caso na Procuradoria Geral de Justiça
do Distrito Federal mexicano (PGJDF).
Cinco pessoas estão presas em conexão com o caso, entre elas a dona do estabelecimento, sua irmã, duas filhas e seu parceiro.
Penas para o uso de trabalho forçado podem chegar a 40 anos de prisão no
México; a sentença sobe para 70 anos se os acusados forem eventualmente
condeados por sequestro.
Cativeiro
Esse é o primeiro caso de escravidão laboral de que se tem notícia na
capital mexicana, e o escândalo cresce à medida que vêm à tona mais
detalhes do cativeiro de Zunduri.
Segundo as autoridades, a garota ficava acorrentada dentro de um quarto
de quatro metros quadrados dentro da tinturaria; no andar de cima
moravam os proprietários.
Ela conta que seus captores a deixavam sem comida e água por até cinco dias.
"Cheguei a ficar muito tempo sem comer ou tomar água, mastigava os
plásticos que usávamos para cobrir as roupas", disse à emissora.
Escondida atrás de pilhas de roupa, ela ficava longe da vista dos
clientes. Se gritasse, contou ela ao jornal mexicano 'El Universal',
seria punida severamente.
Zunduri chegou à tinturaria anos atrás, depois de fugir de casa.
Ela conhecia a dona, que é mãe de uma ex-colega sua de escola. A mulher a
contratou para passar roupa em troca de cerca de R$ 60 por semana,
comida e uma cama.
Mas Zunduri largou o trabalho para morar com o namorado. Quando a relação se acabou, e ela voltou à tinturaria.
Só que, para recuperar o emprego, ela teve de aceitar trabalhar mais em troca de menos. E começou sua escravidão.
"À medida que aumentava o trabalho, eu me sentia mais cansada e cheguei a
queimar várias roupas", contou ao 'El Universal'. As perdas eram
descontadas de seu salário.
Também aumentou sua jornada de trabalho, que chegou a ser de 14 horas
diárias. Quanto mais erros ela cometia, mais aumentava sua "dívida" com
os patrões e mais violência física sofria.
Segundo Zunduri, a dona da tinturaria a deixava acorrentada por dias sem comida, até que ela finalizasse todas as tarefas.
Bairro
A tinturaria está atualmente fechada, com lacres da PGJDF. Só ao se
tocar a campainha aparecia alguém para receber ou entregar roupas por um
pequeno espaço.
No bairro, os vizinhos só comentam o caso sob anonimato. Todas as
pessoas consultadas pela BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC,
afirmaram nunca terem percebido nada de estranho envolvendo a família
acusada, apesar de Letícia Molina, a dona do estabelecimento, ser
considerada "antissocial" por alguns moradores locais.
"Ela não tinha amigos na região, não falava com os vizinhos", disse à reportagem a dona de uma ótica na mesma rua da tinturaria.
Eliseo López, que é primo distante da família acusada e trabalha na região, não acredita na versão da Justiça mexicana.
"Posso te dizer que são boas pessoas. Entrei na casa duas vezes neste
ano, meu tio me deixava ir ao banheiro. Nunca vi ou ouvi nada estranho",
diz.
Ele se queixa da personalidade difícil de Molina e diz que não falava
com ela, mas duvida do relato da garota que denunciou a escravidão.
"Sinto que é uma difamação."
Perante a Justiça, Molina disse que castigou a garota "porque ela era
muito violenta e não obedecia quando se mandava que ela fizesse as
coisas", segundo o 'El Universal'.
Dois anos atrás, Zunduri pegou cerca de R$ 20 para fugir da tinturaria e por isso decidiram acorrentá-la, agregou.
Em uma ocasião em que a garota tentou se defender, os castigos
aumentaram, admitiu Molina. A proprietária da tinturaria afirmou achar
"injusta" a forma como a jovem reagia, já que recebia "comida e
trabalho".
A investigação continua, e Zunduri está no momento abrigada em um
albergue da Promotoria da capital mexicana, recebendo atendimento médico
e psicológico.

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