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Fotos e vídeos de caça ilegal se espalham pelas redes como nova forma de apologia ao crime

Morador de Paulínia compartilhou foto de caça a ave este ano

Morador de Paulínia compartilhou foto de caça a ave este ano — Foto: Reprodução

Entre 2018 e 2020, caçadores abateram ilegalmente ao menos 4.658 animais silvestres e os mostraram como troféus em fotos e vídeos de grupos especializados no Facebook, segundo uma pesquisa feita pelo Centro de Pesquisa Florestal Internacional (Cifor-Icraf). O levantamento, publicado no mês passado, indica a extensão de uma prática que continua até hoje nas redes sociais e que, se é considerada apologia ao crime pelo Ibama, também fornece provas para punir os infratores.

Nos anos analisados pelo centro, as publicações com mortes de animais no Facebook acumularam 421.374 curtidas e um total de 45.854 comentários. Segundo o Ibama, a divulgação de caça de espécies silvestres pode ser enquadrada como apologia ao crime, com pena de detenção de 3 a 6 meses ou multa.

Pacas, aves, tatus, tartarugas e jacarés estão entre os espécimes abatidos nos 26 estados, conforme a pesquisa. Registros de caças foram localizados nas redes em todos os biomas.

— A caça ainda permanece na cultura do povo brasileiro. O número de municípios em que detectamos caça ilegal foi em torno de 14% do total. E isso para uma amostra relativamente pequena, de cinco grupos de Facebook — diz o biólogo Hani Rocha El Bizri, um dos autores do levantamento, publicado em 9 de setembro na revista Conservation Biology.

O maior número de eventos de caça foi na Amazônia (707), seguido de Mata Atlântica (688), Cerrado e Pantanal (387). Na Amazônia, prevalece o abate de animais maiores. Nas outras regiões, os principais alvos são os pássaros.

Entre os animais mortos foram identificadas 19 espécies ameaçadas de extinção presentes na lista vermelha da União Internacional da Conservação da Natureza e Recursos Naturais, como a anta, além de um tipo de porco espinho descrito apenas em 2014 em Pernambuco. Mas o animal não precisa estar ameaçado para a caça ser considerada criminosa.

A lei protege todas as espécies silvestres, e a prática só é autorizada pelo Ibama quando há necessidade de controle populacional, como no caso do javali. O levantamento do Cifor-Icraf só levou em consideração situações ilegais. O crime tem pena de seis meses a um ano de detenção, além de multa.

— Nenhuma espécie brasileira pode ser caçada do modo como está sendo apresentado no Facebook. É uma caça esportiva — diz El Bizir, professor de biologia na Universidade de Salford, na Inglaterra, e membro do Instituto Mamirauá. — Exceções são por estado de necessidade e por populações indígenas.

O Ibama informou ter observado um aumento nos crimes contra a fauna nas redes sociais. Segundo o órgão, houve inicialmente resistência das redes sociais em bloquear esse tipo de conteúdo, “embora isso seja tecnicamente viável”. Entre 2021 e 2022, o Facebook foi multado em R$ 11,5 milhões. Atualmente, o instituto diz manter diálogo direto “com empresas de redes sociais dispostas a colaborar, buscando formas de prevenir e coibir essas práticas”. Procurados, a Meta, dona do Facebook, e o Google, dono do Youtube, não se manifestaram.

Anúncios de armas, dispositivos de visão noturna e roupas camufladas são comuns nesses fóruns. Dicas de como montar armadilhas também. No grupo “Caçadores amigos da caça”, criado em Portugal mas com muitos brasileiros, no dia 14 de agosto, um morador de Paulínia (SP) publicou um vídeo em que um homem acerta um pássaro com uma espingarda. Ele é autor de postagens similares nos últimos meses, em outros fóruns, como a que mostra um veado-mateiro morto em fevereiro.

Em um grupo fechado, um caçador da Paraíba publicou uma gravação de uma caça a tatus, com dois animais da espécie abatidos. Na comunidade “Caçadores de Paca”, criada em julho de 2020, um morador de Belo Horizonte expôs em agosto um roedor esfolado e morto.

O Facebook não é a única rede social em que esse conteúdo circula. Em 2015, El Bizri, com outros autores, publicou um artigo sobre esse conteúdo disponível no Youtube. Foram identificados 383 vídeos, com 15 milhões de visualizações. Ainda hoje, uma pesquisa por termos como “caça” e “paca” ou “cutia” na plataforma retorna vídeos de canais com cenas de mortes desses animais.

Em alguns casos, a gravação e a divulgação leva à punição dos envolvidos. Em março, um vídeo com 30 pacas mortas nas redes e revoltou a população de Porto Velho. Moradores do distrito de Calama, na foz do rio Ji-Paraná, em Rondônia, os caçadores apareceram retirando os animais de um barco. Localizados pelo Batalhão de Polícia Ambiental do estado, foram multados em R$ 76 mil e passaram a responder por caça ilegal.

Em abril de 2022, o pecuarista de Paconé (MT) Benedito Nédio Nunes Rondon teve a prisão preventiva decretada ao se deixar gravar em vídeo onde aparecia abraçado ao corpo de uma onça que havia matado.

Na gravação, ele zombou do animal e falou que “encoxaria’’ a onça caso fosse uma fêmea. Após duas semanas foragido, Rondon se entregou mas foi solto após assinar um termo de ajuste de conduta (TAC) com o Ministério Público do Mato Grosso e se comprometer ao pagamento de R$ 150 mil.

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