Do Correio Braziliense - Práticas
tão antigas quanto a história do homem, tatuagens, perfurações e
escarificações nunca saíram de moda.
Que o digam os adolescentes, sempre
insistindo com os pais para autorizarem a colocação de um piercing ou a
gravação de uma figura na pele. Embora a legislação proíba a realização
dessas técnicas em menores de 18 anos, elas podem ser feitas, contudo,
quando há anuência do responsável.
Cientes de que os mais jovens ainda se encantam com as interferências
corporais, médicos da Associação de Pediatria Norte-Americana
publicaram, pela primeira vez, recomendações sobre elas, voltadas a
pediatras, pais e filhos.
A ideia do documento, publicado em forma de artigo na revista
Pediatrics, não é fazer julgamentos morais nem estéticos, esclarece
David Levine, coautor das recomendações e professor da Faculdade de
Medicina Morehouse, em Atlanta. O que os médicos pretendem é esclarecer
os mais jovens sobre os possíveis riscos dessas práticas, a fim de que
tenham informação suficiente para decidir se querem ou não ir em frente.
“Na maior parte das vezes, os adolescentes não sabem como é caro
remover uma tatuagem ou que um piercing na língua pode resultar em um
dente rachado”, exemplifica.
As complicações podem ocorrer independentemente da idade. Porém,
nos mais jovens, muitas vezes, o impulso e a desinformação acabam
amplificando os riscos. Até porque, quando não autorizados pelos pais,
eles tendem a recorrer aos tatuadores e body piercers de fundo de
quintal, que trabalham em condições de pouca ou nenhuma higiene, sem
seguir regras mínimas de segurança.
A estudante
Marina Bezerra da Silva, 16 anos, conta que isso é comum entre os
adolescentes que conhece. “Muitos não têm maturidade. Os pais não
autorizam e vão em lugares que podem colocá-los em risco”, diz. A jovem
tem dois piercings, um na cartilagem da orelha e outro no nariz. Mas
ambos foram feitos em estabelecimentos autorizados, com materiais
descartáveis e esterilizados, e na presença dos pais dela.
Mesmo
com esses cuidados, na primeira vez em que furou o nariz, Marina teve
complicações. À época com 14 anos, ela fez o piercing em um estúdio,
como o recomendado, mas sofreu de inflamação com pus e queloide. Aos 15,
ela resolveu colocar a joia na cartilagem da orelha e, seguindo
corretamente as orientações de higiene, não teve problemas. Neste ano, a
estudante resolveu fazer o piercing no nariz novamente, também sem
qualquer contratempo. “O importante é seguir as recomendações. Eu limpo
três vezes ao dia com álcool. Tem muito jovem que não cuida”, diz.
A estudante Giulia Dickel, 20 anos, concorda com Mariana. Ela fez o
primeiro piercing aos 14, e a tatuagem aos 16. “O piercing foi na casa
de um amigo que estava aprendendo o ofício. Eu fui muito desleixada,
estava numa fase muito rebelde e queria pôr de qualquer jeito. Tive
inflamação com um na orelha, por falta de cuidado meu”, conta. Já com a
tatuagem, Giulia estudou bastante e procurou um estúdio sério. “O
próprio tatuador se preocupou em me mostrar tudo limpinho, os materiais
descartáveis, e o lixo para descartar a agulha”, relata.
Grávida
do primeiro filho, a jovem, agora, se coloca no lugar dos pais. “Acho
que os pais têm de ficar no pé. Tem muito jovem que faz em qualquer
lugar, paga tatuagem de R$ 50, faz piercing na casa dos coleguinhas e
pega infecção. Se for para fazer, é muito importante ter a orientação
dos pais e ter certeza do que quer e que não vai se arrepender”,
acredita.
Precoces
Segundo o artigo publicado na
Pediatrics, os adolescentes se tornam adeptos das artes corporais cada
vez mais cedo. Pesquisas citadas no artigo e realizadas em oito estados
norte-americanos mostram que 10% dos estudantes de high school,
equivalente ao ensino médio brasileiro, têm tatuagens, e 55% desejam
fazê-las. Em média, eles se tatuam aos 15 anos, embora os levantamentos
tenham encontrado crianças com 8 anos já tatuadas. Um dos estudos, com
jovens de 12 a 22 anos, constatou que de 10% a 23% dos entrevistados
tinham piercing (não incluindo furos no lóbulo da orelha). No Brasil,
não há dados semelhantes disponíveis.
Marina teve problemas quando furou o nariz, aos 14 anos: pus e queloide.
Embora o interesse pelas modificações corporais seja alto, outra
pesquisa citada na Pediatrics, conduzida entre calouros de universidades
italianas, revelou que o desconhecimento a respeito dos riscos é
grande. Cerca de 60% deles sabiam que é possível contrair HIV/Aids com
equipamentos de tatuagem e piercing contaminados. Porém, menos da metade
já tinha ouvido falar dos riscos de hepatite C (38%), hepatite B (34%),
tétano (34%) e outras condições não infecciosas (28%), como alergias.
“Essas descobertas são semelhantes às obtidas em uma amostra de
estudantes de medicina que fizeram piercing”, diz o artigo da Associação
de Pediatria Norte-Americana (AAP).
Para
os desavisados, Cora C. Breuner, presidente do comitê de adolescência
da AAP, e David Levine explicam que a tatuagem consiste na introdução de
pigmentos na derme por meio de agulhas, a profundidades de poucos
milímetros. Sangue e outros fluidos que saem durante o procedimento
devem ser retirados cuidadosamente. Depois do desenho pronto, a pele
deve receber mais antisséptico e ficar coberta por 24 horas. Mesmo
quando se tira a proteção, é preciso aplicar antibióticos tópicos,
cremes ou óleos várias vezes ao dia. Geralmente, são necessárias duas
semanas para cicatrizar, período em que se deve evitar tomar sol, nadar
ou molhar diretamente com duchas. Roupas que aderem à tatuagem não podem
ser usadas.
As tintas da tatuagem são uma mistura de pigmentos minerais,
inorgânicos e sintéticos, além de diluentes. As concentrações de metais
(substância carcinogênica) são baixas, mas os médicos lembram que, em
estúdios de fundo de quintal, o material utilizado pode não obedecer às
normas das agências de vigilância sanitária. “Idade, sexo, genética e
outros fatores parecem influenciar na toxidade potencial”, observa
Breuner.
Dor e deformação
Um outro problema de
adolescentes fazerem tatuagem é que, antes dos 15, 16 anos, o
crescimento não se deu por completo, lembra o dermatologista do Grupo
Aepit Gilvan Alves, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia
Dermatológica e de associações como a American Academy of Dermatology.
“Com o crescimento, o desenho da tatuagem ficará deformado, porque a
pele estica. Pode até abrir uma estria bem no meio da figura”, afirma.
E,
no caso de arrependimento, é possível desfazer a tatuagem a laser, mas o
processo não é rápido, nem indolor. “É possível fazer a remoção em
qualquer idade, mas não é tão simples quanto fazer a tatuagem. Para a
remoção completa, são necessários de três meses a um ano, sendo que tem
um intervalo de um mês entre cada sessão. É caro e doloroso. Dói,
sangra, dá ferida”, relata o dermatologista.
Mesmo as tatuagens temporárias, de henna, oferecem riscos, diz
Alves. Com o agravante de que, por acharem inofensivas, muitos pais
permitem que até crianças pequenas façam e, geralmente, em ambientes não
controlados, como praias. “A henna é extremamente alergênica e, em
casos raros, pode dar até choque anafilático, levando à morte. O ideal é
fazer apenas um pedacinho do desenho e esperar 72 horas, porque pode
haver reação tardia”, ensina.
A importância do diálogo
“Uma
vez que temos um público de adolescentes cada vez mais interessado em
piercings e tatuagens, o pediatra e a família têm de saber orientar.
Essa publicação foi fundamental porque é preciso orientar nas consultas
sobre os riscos que, muitas vezes, eles desconhecem, como inflamações,
infecções e até doenças graves, como Aids e hepatites. Muitos pais têm
preconceito com o tema e se recusam a abordá-lo com a criança e o
adolescente. Porém, esse diálogo tem de existir, e, no consultório, o
pediatra pode ajudar. Se os pais não conversam, os filhos vão em
qualquer lugar, em vez de escolherem um profissional e uma clínica
adequados, e, quando chegam em casa, já não há mais o que ser feito.”

0 comments :
Postar um comentário