Diário de Pernambuco - A cerca de 31,5 km da capital do Ceará, Fortaleza, o município litorâneo de Aquiraz conta com pouco mais de 78 mil habitantes. Em Paris, do outro lado do oceano, uma cidadã nascida e criada nesta pequena cidade nordestina entrou para a história como a primeira transexual a estampar a capa da revista de moda mais conceituada do mundo, a Vogue Paris. A trajetória bem-sucedida de Valentina Sampaio,
de apenas 20 anos, vai na contramão do destino malfadado de parte das
pessoas LGBTT no Brasil: apenas em 2016, foram cerca de 340 mortes
motivadas por preconceito, de acordo com levantamento divulgado pelo Grupo Gay da Bahia, número recorde na história do país.
Ela, contudo, driblou as estatísticas e agora se junta a nomes como
Carol Marra, Lea T. e Carmem Carrera na representação de uma nova voz
para aqueles cujas oportunidades geralmente são relegadas ao descaso.
“Eu já fui alvo de preconceito, mas isso não me derrubou. Segui em
frente e procurei ser mais forte do que ele. Eu diria que todos precisam
ter força porque a situação das trans é difícil e delicada. Muitas
vezes não temos voz”, avalia a modelo. “Vi comentários preconceituosos
logo depois das primeiras reportagens começarem a sair, mas procuro não
me abalar com isso. Me preocupo em absorver as coisas boas”, completa.
Apesar dos casos pontuais de
discriminação, como a vez em que teve um trabalho negado por uma marca
descrita por ela como “conservadora”, Valentina diz não ter vivenciado
uma infância conturbada ou uma relação conflituosa com os pais no
despertar da transexualidade, constatada por volta dos 8 anos após uma
visita ao psicólogo – a mãe é professora e o pai, pescador.
“A minha infância foi a melhor possível. Cresci rodeada pelos meus
irmãos e tenho pais maravilhosos. São a minha base. Vê-los felizes é
muito gratificante para mim. Mesmo estando longe, estou sempre conectada
a eles, que acompanham tudo e estão muito orgulhosos. Enchem meu
coração”, emociona-se. Floresceu a personalidade e surgiu o nome
Valentina, agora conhecido em todo o mundo pelo pioneirismo na
publicação, cuja importância reverbera tanto na moda quanto no ativismo.
“Espero que essa discussão ajude de alguma forma a construir um futuro
mais digno e humano. Esse assunto está sendo cada vez mais falado e
estamos dando voz e oportunidade a pessoas que muitas vezes não tinham.
Precisamos de mais respeito pelo próximo, para aceitar que todas as
diferenças são enriquecedoras”, pontua a jovem.
Há aproximadamente cinco anos atuando profissionalmente como modelo, a
cearense tem no currículo marcas reconhecidas, como as brasileiras Água
de Coco, Morena Rosa, Schutz, Melissa, Skunk, EVA e as internacionais
Armani e L’Oreal, da qual é embaixadora. Foi com essa última empresa,
aliás, que a carreira de Valentina decolou em ascensão meteórica. Antes
disso, chegou a se matricular em arquitetura em uma faculdade de
Fortaleza, mas deixou o curso para estudar moda – graduação que também
precisou abandonar para se dedicar às passarelas e aos ensaios
fotográficos.
A visibilidade, proporcionada pelas participações em vitrines do
mercado fashion brasileiro, a exemplo do Dragão Fashion, Minas Trend e
São Paulo Fashion Week, resultaram na proposta irrecusável da Vogue.
“Estava em São Paulo quando minha agência, a JOY Model, me comunicou
que, dentro de cinco dias, eu precisaria estar na Europa para a sessão
de fotos. Foi uma grande surpresa”, relembra ela. O ensaio para a
publicação francesa ocorreu em Londres sob o comando de Mert Alas e
Marcus Piggot. Entre um clique e uma pausa para retocar a maquiagem, não
houve espaço para nervosismo: “A equipe me fez sentir bastante à
vontade. Logo que vi os resultados dos primeiros cliques, fiquei ainda
mais animada. Não faltaram momentos divertidos. Eles foram muito
atenciosos e profissionais”, afirma.
O entrosamento tende a ser o mesmo em outros trabalhos, dentro do
Brasil ou fora dele. A modelo vive na ponte aérea entre o país e a
Europa para dar conta da demanda, mas o sacrifício é recompensado.
“Tenho trabalhado bastante e sou muito grata ao que tem acontecido. Tem
sido uma repercussão grande e muito positiva”, sentencia. De olho no
mercado internacional mas sem deixar de prestar atenção à casa,
Valentina avalia o cenário brasileiro de moda como promissor – “O Brasil
tem muita identidade e cultura para mostrar. Temos muitas pessoas
talentosas” -, embora se furte a citar nomes. Focando na sua terra
natal, o Nordeste, a ponderação segue positiva, porém breve: “É uma
terra muito rica em talentos e com muito para mostrar”.
Na agenda, além de desfiles e ensaios fotográficos, Valentina tem
marcada para o segundo semestre a estreia da comédia Berenice procura, a
primeira incursão pelo cinema. Dirigido por Allan Fiterman (Verdades
secretas), o longa-metragem narra a história da taxista que dá nome ao
filme, interpretada por Cláudia Abreu. A personagem costuma ouvir na
rádio o programa policialesco e sensacionalista do ex-marido Domingos
(Eduardo Moscovis) e decide se dedicar ao caso do assassinato de uma
travesti no Rio de Janeiro, cidade em que é ambientada a produção.
Valentina interpreta Isabelle, uma cantora. Para ela, foi uma
“experiência maravilhosa” que pode se repetir em breve, já que há a
vontade de enveredar pela profissão de atriz.
Nos cinemas ou no “habitat natural”, as passarelas, o futuro de
Valentina Sampaio promete ser repleto de superlativos. Até o momento, no
entanto, é incerto e se desenhará a partir dos projetos nos quais
decidir embarcar. “Tudo é muito novo para mim. Estou no começo da minha
trajetória e meus sonhos são os mais lindos. Pretendo realizá-los, um a
um. A única certeza é que ainda há muito para fazer. Procuro sempre
estar focada e fazendo meu melhor, sempre com profissionalismo”,
planeja.
Pioneirismos
A projeção mundial alcançada por Valentina Sampaio encontra paralelo,
em diferentes escalas, na visibilidade obtida por pessoas cuja
trajetória virou bandeira pela valorização da liberdade sexual. Lea T
foi a primeira trans brasileira a estampar a capa de uma revista de
grande circulação no país, a Elle, em dezembro de 2011. Caroline Cossay, inglesa, atuou em um filme da franquia 007 e chegou a
posar para a revista Playboy “como mulher”, mas, em 1981, um tabloide
revelou a sua transexualidade e a carreira foi afetada. A tailandesa
Peche Di fundou, em 2015, a primeira agência voltada para modelos
transexuais do mundo, a Trans Models NYC.

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