Mary Zaidan - O ex Luiz Inácio Lula da Silva se diz ansioso para depor ao juiz Sérgio
Moro. Sua pupila e sucessora, a presidente cassada Dilma Rousseff, se
“preocupa muito que mudem as regras” e prendam o seu padrinho.
Combinados, eles fazem o jogo do contrário: o claro é escuro, o dia é
noite.
Assim como os demais enrolados e arrolados pela Lava-Jato, Lula quer
distância de Moro, mas não pode correr de uma intimação. E Dilma apenas
engrossa a conhecida lengalenga de perseguição a Lula. Condená-lo não
seria aplicação da lei, mas ação deliberada para impedir seu retorno à
Presidência.
Ambos descem a lenha no Ministério Público Federal e na atuação da
Justiça e, ao mesmo tempo, têm a desfaçatez de se dizerem defensores da
Lava-Jato.
Há quase um ano, Lula, Dilma e o PT tentam convencer o mundo de que o
Brasil vive em estado de exceção. Com algum sucesso, até conseguiram
apoio internacional na campanha contra o “golpe” que afastou Dilma. Neste sábado, na Universidade de Harvard, em Boston, em evento
organizado por alunos brasileiros, Dilma repetiu a ladainha. Acrescentou
a pregação que o PT e Lula têm batido nas redes sociais e nas ruas: uma
eventual condenação de Lula seria uma armação para tirá-lo da “parada”
em 2018. E misturou – por confusão, má-fé ou ambos – regras eleitorais
com prestação de contas à Justiça.
Além de ser mais uma afronta às instituições brasileiras,
especialmente à Justiça, a tese reforça a intocabilidade que Lula e
aqueles que o cercam exigem para o ex. Ele estaria acima de qualquer lei. Acima de qualquer coisa. Na verdade, sempre se considerou assim.
Reforçar esse discurso do injustiçado pela Justiça, que quer cassar
os direitos de Lula de concorrer no ano que vem, é a saída que resta
para a possibilidade cada vez mais palpável de o líder maior do petismo
ser condenado em um ou mais dos cinco processos nos quais é réu.
Tem-se ainda uma corrida contra o relógio. Nada a ver com a oitiva de
Lula por Moro no dia 3 de maio, quando o PT pretende colocar tropas em
Curitiba, mas com as delações do marqueteiro João Santana e sua mulher
Mônica Moura. E, de quebra, com os estragos que o também marqueteiro
Duda Mendonça pode fazer ao falar com o MPF, audiências premiadas que
começam em breve.
Até José Dirceu, preso em São José dos Pinhais, teria feito
considerações de que serão delações explosivas, com potencial de colocar
Lula e Dilma na cadeia. Para fazer frente a elas, o ex-capitão do time
petista crê que é preciso ocupar as ruas. Mobilizar, colocar os aparelhos das centrais sindicais e dos ditos
movimentos sociais na rua é o menor dos desafios. O problema real está
no teor das delações, nos documentos e cruzamentos de dados que
incriminam Lula.
Está na objetividade da acusação que o ex tenta dizer que é subjetiva
quando se remete às trapalhadas do powerpoint do procurador Deltan
Dellagnol, que, em setembro do ano passado, apontava Lula como
beneficiário central da Lava-Jato, apoiado em “convicção”.
De lá para cá Lula e seus advogados sabem das novas diligências, das
novas delações e das cooperações internacionais firmadas. Do
rastreamento das palestras milionárias pelo mundo combinados com os
contratos que a Odebrecht conseguiu nos “países amigos”. Do sorvedouro
de dinheiro público para financiar campanhas, luxos e mimos do ex, de
sua afilhada e de aliados, incluindo gente que hoje eles acusam de
“golpista”.
Para os fiéis, Lula, Dilma e o PT deverão recrudescer o discurso do
“todos contra Lula”, sempre sem dizer quem são os “todos”.
Paralelamente, assim como fez na semana passada, Lula vai aliviar a fala
em relação a Moro. Fará outros elogios, repetirá que Moro “cumpre papel
importante”. Firulas petistas à parte, ao Brasil só interessa que a Justiça seja
justa. Que absolva inocentes, condene e coloque na cadeia aqueles que
surrupiaram o país. Seja quem for, seja ou não um Lula.

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