O Estado de S.Paulo - Pesquisas apontam empate duplo na disputa pelos
primeiros lugares: Macron, Le Pen, Fillon e Mélenchon têm chance de
avançar para o segundo turno, mas especialistas acreditam que tentativa
de tirar dividendos políticos de ataque deve ser limitada.
Dias depois de um novo atentado terrorista, a França chega neste
domingo, 23, à eleição presidencial mais acirrada e imprevisível da 5.ª
República. Nunca, nos últimos 60 anos, quatro candidatos estiveram tão
próximos uns dos outros às vésperas do primeiro turno e qualquer
projeção para o segundo turno é arriscada. Analistas acreditam que a
ação reivindicada pelo Estado Islâmico na Avenida Champs-Elysées agrega
ainda mais incerteza.
O quadro de indefinição foi captado por todas as pesquisas de opinião
nas últimas três semanas, desde a forte ascensão do candidato radical
de esquerda Jean-Luc Mélenchon, do movimento França Insubmissa. Por ter
roubado votos dos dois favoritos, o social-liberal Emmanuel Macron, da
recém-criada legenda En Marche! (Em Movimento), e a nacionalista Marine
Le Pen, da Frente Nacional, seu crescimento nas sondagens embolou a
disputa pelos quatro primeiros lugares, que conta ainda com o
conservador cristão François Fillon, do partido Republicanos.
Na sexta-feira, as três últimas pesquisas de opinião divulgadas pelos
institutos Ipsos, OpinionWay e Odoxa trouxeram números semelhantes.
Ex-ministro da Economia, Macron teria ligeira vantagem na liderança, com
entre 23% a 24,5% das intenções de voto. Em segundo lugar estaria
Marine Le Pen, com entre 22% e 23%. Em terceiro lugar disputariam
Fillon, com estimativas entre 19% e 21%, e Mélenchon, com 18% a 19% das
preferências. Na prática, os prognósticos revelam um duplo empate
técnico, pela disputa pelo primeiro lugar e pela do segundo lugar.
De acordo com analistas políticos, parte da incerteza às vésperas do
voto se dá em razão da campanha eleitoral superficial, que chegou ao fim
na sexta-feira sob o impacto de um novo atentado terrorista. Marcado
por escândalos de corrupção em torno de Fillon e de fraudes no
financiamento de campanha de Marine Le Pen, o debate político
programático acabou ficando em segundo plano, prejudicado por notícias
falsas em redes sociais e pelo maniqueísmo de militantes.
A exemplo da campanha do Brexit, no Reino Unido, em junho de
2016, e da eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, em novembro, o
grande tema na França acabou sendo o confronto entre candidatos
pró-abertura, globalização e livre-comércio, como Emmanuel Macron e em
menor escala Fillon, e candidatos protecionistas e antiglobalização,
como Marine Le Pen e Mélenchon.
Na sexta-feira, até mesmo essa configuração foi abalada
após o atentado da Champs-Elysées - um tema de preferência da extrema
direita de Marine Le Pen e da direita dura de François Fillon.
Embora evitem prognósticos, analistas ouvidos pelo Estado consideram que
o ataque poderá causar um impacto marginal na tendência de voto hoje.
Para Jean-Jacques Kourliandsky, do Instituto de Relações Internacionais e
Estratégicas (Iris), de Paris, a França sofreu tanto com tragédias
recentes, em 2015 e 2016, que a população teria aprendido a agir diante
de eventos sensíveis. “Tenho a impressão de que há um efeito de
vacinação”, entende o analista. “Pode parecer paradoxal, porque tivemos
muitos episódios, mas falamos muito pouco nessa campanha sobre questões
de terrorismo.”
Jean-Yves Camus, um dos maiores especialistas em extremos
políticos na França e na Europa, também entende que o impacto político
do atentado tende a ser limitado. “É infeliz afirmar, mas não foi um
atentado em massa, como o de Nice. A maneira como ele foi recebido pelo
público foi diferente”, afirma.
Camus entende que Marine Le Pen e Fillon tentaram, na
sexta-feira, tirar proveito eleitoral do atentado, mas a iniciativa pode
não ter surtido efeito. “Não creio que haverá uma mudança no quadro
eleitoral”, completa.
Para Mathieu Guidère, especialista em islamismo radical e em terrorismo
global da Universidade de Paris 8, o ataque reivindicado pelo Estado
Islâmico teve o objetivo claro de intervir na eleição presidencial
francesa. “Não creio que a população vá cair nessa armadilha”, disse.

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