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As Alpercatas voadoras de Lampião (Mentira e Ficção)

Por Adriano Santori - O Rei do Cangaço foi um grande leitor. Isso é fato! Lia de tudo: jornais, revistas, livros e tudo mais que lhe chegasse nas mãos. Certa vez, durante um ataque à fazenda Boa Palavra, “adquiriu” um livro sobre a Grécia Antiga, sua cultura e seus deuses. Um deles, “Hermes”, lhe chamou a atenção. Não por ser ele o deus do sonho, fertilidade, etc. Mas por ele possuir um par de sandálias com asas, que o levavam a onde quisesse com muita ligeireza. 

Lampião pensou: “Mas, menino, eu com uma sandália dessas seria o governador do mundo. Indo de Salvador a Juazeiro num pulo!” Passou dias e dias matutando como ir ao estrangeiro, raptar o deus e lhe as sandálias.

Matutou, matutou que cansou! Já desanimado procurou seu coreiro (artista em couro) de confiança e lhe encomendou uma parelha de alpercatas voadoras, claro sob a pena de morte, em caso não fosse atendido. O artesão se desesperou: 

- Mas Capitão, como é que eu vou fazer uma doidice dessas, se numa vi nem como é uma alpercata deste jeito! Lampião riu ironicamente, pegou um papel, rabiscou o modelo no livro, e deu o prazo de duas semanas para a tarefa estar concluída. Partiu.

O artista do couro, mesmo temendo a morte certa, saiu em buscas de todo tipo de curandeiro, feiticeiro daquela ribeira, e nada. Mandou um mensageiro aos parentes mais distantes buscando uma solução e quando a busca parecia em vão uma luz brilhou no quengo! Lembrou-se que tinha guardado em cima do camiseiro uma caixinha que tinha uma “erva”, que certa vez um primo do sul lhe pediu para guardar. Uma erva proibida, mas que deixava o cabra leve como uma pluma de paturi. Se o amigo souber o nome desta erva, por favor de diga. 

Bem, continuando... Pegou duas alpercatas recém-feitas, costurou nela as asas de duas ribaçãs, pintou com uma tinta amarelada, imitando ouro, e esperou pela vinda do Capitão. 

Lampião chegou numa terça-feira, vinha atrasado e irado com a derrota de Mossoró, irado e com fome. Mandou os cabras pegarem o coreiro e quando da presença dele, pronunciou a sentença:

“-Estais pronto para morrer, sujeito?” E o artista, em resposta:
 
“- Se o Capitão quiser eu tô, mas as alpercatas estão prontas!” E lhe mostrou as alpercatas com duas asas em cada lado. Lampião assustou-se. Não é que o cabra tinha feito mesmo. E perguntou:

“- E funciona?!” - O coreiro respondeu:
 
“-Sim, Capitão! Porém, elas tem um segredo. A pessoa que ensinou o feitiço para ela voarem me disse que é preciso que antes, o amigo reze um credo, calce as alpercatas e fume este cigarro de palha especial, que foi enrolado em pergaminho sagrado, oriundo das catacumbas do antigo Egito, fazendo assim, o Capitão voará!

No mesmo dia Lampião foi testar as alpercatas. Ficou na beira de um penhasco, fez a reza e tacou fogo no cigarro. Como era um homem precavido, mandou que todos os seus cabras dessem uma primeira tragada antes dele, para conferir se não estava envenenado. Todos o fizeram. Não deu outra. Em pouco tempo o bando estava leve e risonho. O Capitão arregalou os olhos e se sentiu voando por todo o nordeste. Dando vôo rasante no Raso da Catarina, subindo ao céu... 

O bando tornou, horas depois, com o tirinete de bala; era a volante que já estava a poucos metros. O artista fazedor já tinha sumido no mundo faz tempo.

Contam que muito depois, Lampião quis repetir o feito do vôo, mas quase que se lascava caindo dum penhasco, isso já nas bandas do Pernambuco. Passou a experimentar todo tipo de fumo tentando descobrir que erva era aquela, em vão!
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