G1 (RN) - O Ministério Público Estadual denunciou a colunista social Hilneth Correia como funcionária ‘fantasma’ da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte.
Outras quatro pessoas, dentre elas o atual secretário geral da AL, Augusto Viveiros,
foram denunciadas por viabilizar os pagamentos irregulares a ela. O MP
quer reparação da colunista no valor de quase R$ 500 mil que recebeu de
remuneração sem contraprestação laborativa. Essa é a primeira denúncia
ofertada pelo Ministério Público Estadual, relacionada a funcionários
“fantasmas” da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte.
O juiz de Direito Raimundo Carlyle de Oliveira Costa, da 4ª Vara
Criminal da Comarca de Natal, citou os denunciados Pedro Lopes da Silva
Filho, José Eduardo Costa Mulatinho, Augusto Carlos Garcia de Viveiros,
Bernadete Batista de Oliveira e Hilneth Maria Correia Santos a
responderem a acusação do MPRN, por escrito, no prazo de dez dias.
Ao G1, a colunista Hilneth Correia afirmou que nunca
foi funcionária fantasma. “Sou jornalista, sou assessora de imprensa,
sempre fiz o meu serviço através dos meios de comunicação. Sempre estive
presente nos eventos da Assembleia, sempre noticiei. Atualmente sou
lotada no memorial da Assembleia e em breve vou estrear um programa de
rádio sobre o memorial”, disse. Ela confirmou que quando era assessora
de imprensa do gabinete da presidência não cumpria expedianete
diariamente. “Antes eu não ia todos os dias. Eu ia em alguns dia da
semana. Muita gente trabalha mais fora do que dentro e hoje em dia com
internet, computador, se faz esse trabalho de qualquer lugar”.
Em desfavor dos denunciados, o MPRN
pede a condenação pela prática de condutas tipificadas no artigo 312,
caput, do Código Penal (peculato) combinado com o artigo 327, § 1º do CP
(para quem equipara-se a funcionário público) e também combinado com o
artigo 71 do CP (quando o agente, mediante ação ou omissão, pratica os
crimes em continuação).
Na peça acusatória, a Promotoria de Defesa do Patrimônio Público de
Natal relata que Pedro Lopes da Silva Filho e José Eduardo Mulatinho nos
anos de 2011 a 2015, o secretário-geral da Assembleia Legislativa
Augusto Viveiros a partir do ano de 2015, e Bernadete Batista de
Oliveira neste ano de 2016 viabilizaram o desvio de recursos públicos em
favor de Hilneth Correia, que em razão do cargo recebeu remuneração sem
desempenhar efetivamente qualquer função, no valor de quase R$ 500 mil.
Na denúncia recebida pelo juiz da 4ª Vara Criminal de Natal, o MP
requer a condenação dos denunciados; além da reparação dos danos
causados pela infração, considerando o prejuízo causado pela denunciada
Hilneth Correia no valor de R$ 491.525,13 a ser corrigido monetariamente
e acrescido de juros.
A investigação que ensejou a instauração da ação penal é decorrente
da reformulação do Portal da Transparência do site da Assembleia
Legislativa na internet, permitindo que a sociedade tivesse acesso à
informação sobre os valores das remunerações dos servidores da Casa
Legislativa sem a identificação do usuário, o que provocou intensa
discussão na mídia e redes sociais acerca da existência de servidores
fantasmas no âmbito da ALRN.
Na ocasião, ganhou destaque, segundo o MPRN, dentro os possíveis
indivíduos que recebiam remuneração do poder público, sem desempenhar
efetivamente qualquer função, a pessoa de Hilneth Correia, tradicional
colunista social, que divulgava amplamente nas redes sociais seus
momentos de lazer e viagens realizadas.
O MPRN constatou que muitas dessas pessoas pediram exoneração e
outras retornaram aos seus postos de trabalho na tentativa de
desconstruir a alegação de que não compareciam à Assembleia Legislativa.
Tal postura não foi adotada por Hilneth Correia. Por meio da
interceptação telefônica devidamente autorizada judicialmente
constatou-se que a mesma anunciou mudança de rotina, esclarecendo que,
doravante, compareceria às dependências da AL/RN na parte da manhã,
ainda que rapidamente.
Vários áudios que constam da denúncia confirmam que até então a
investigada não comparecia ao local de trabalho, como também revela a
postura de servidor de alto escalão, o secretário-geral Augusto
Viveiros, que orienta a adoção de prática que dificulte a comprovação de
que a subalterna seria servidora “fantasma” do Legislativo estadual. “Não se trata, portanto, de uma determinação para que comparecesse ao
expediente com assiduidade, mas sim de uma escusa para obstacularizar
eventual produção de prova por parte dos órgãos de investigação”, traz
trecho da denúncia.
Segundo o MPRN, a colunista retornou para a Assembleia e foi lotada
no Memorial, exatamente no contexto de intenso patrulhamento social,
contudo, com determinação expressa que fosse atestada a sua presença
mesmo quando não comparecesse. Tempo em que a Assembleia anunciava ampla
reforma administrativa. “Constata-se, de maneira irrefutável, que em vários dias Hilneth
sequer compareceu às dependências da Assembleia Legislativa e que nos
demais dias monitorados a sua estada no órgão foi meteórica, apenas para
‘marcar presença’ e ‘ser vista’.”, assegura o MPRN.
O MPRN também juntou registros da Polícia Federal, de entrada e
saída, bem como informações prestadas por companhias aéreas, que revelam
rotina repleta de viagens nacionais e internacionais da denunciada, sem
que se tenha notícias de que a funcionária estivesse de férias ou
licenciada.
Na denúncia, o Ministério Público Estadual também destaca que a
inassiduidade da colunista não era eventual, o que poderia acarretar
apenas sanção na esfera administrativa, mas desvio mesmo de recursos
públicos ante a flagrante ausência de contraprestação laborativa,
inclusive com falsificação de documentos públicos, a exemplo do que se
constatou com folhas de ponto e ofícios dirigidos ao Setor de Recursos
Humanos.
O MPRN requereu autorização à Justiça para dar publicidade sobre o
conteúdo da denúncia e provas nela citadas, como áudios de interceptação
telefônica, e-mails, depoimentos e documentos, considerando que os
fatos narrados guardam inegável interesse público, o que foi deferido
pelo Juízo da 4ª Vara Criminal, considerando que, “em regra, prevalece o
princípio da publicidade, e não havendo necessidade de se restringir o
acesso aos presentes autos, nos termos do artigo 5º, inciso LV, da
Constituição Federal”.
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