O
“nós contra eles”, que tanto marcou o discurso do PT nos últimos 14
anos e dividiu a opinião pública brasileira, está com seus dias contados
a levar-se em conta o resultado da primeira fase das eleições
municipais deste ano. Ao PT deixará de interessar. E também aos que
sempre se opuseram ao PT por divergir ideologicamente dele e temê-lo.
Funcionou para o PT enquanto ele foi majoritário no campo da
centro-esquerda e controlou o governo federal, fonte em grande parte de
sua vitalidade. De certa forma funcionou também para os adversários do
PT, empenhados em arrebanhar forças capazes de desalojá-lo do poder. Uma
vez que os dois objetivos se esgotaram, perdeu o sentido.
O resultado do primeiro turno da eleição do último domingo mostrou
que o PT desceu a ladeira para um dos níveis mais baixos que já ocupou. O
partido quase foi dizimado. Não conseguiu eleger prefeitos sequer na
metade dos municípios que dominava. Elegeu um único de capital (Rio
Branco). Disputará em uma única capital o segundo turno (Recife).
Nove partidos elegeram mais prefeitos do que o PT – entre eles, até o
DEM, que parecia ameaçado de extinção. O PSB, partido de médio porte e
antigo parceiro do PT, elegeu mais prefeitos do que ele. Partidos que
sempre estiveram na órbita do PT afastaram-se dela e preferiram ir
cuidar de sua própria sobrevivência.
Enfraquecido em baixo, não tem o PT como fortalecer-se em cima. Isso
restará provado em 2018 quando ele disputar as próximas eleições gerais,
de presidente da República, governadores, assembleias e Congresso.
Desde já, o PT admite apoiar o candidato a presidente de outro partido.
Dificilmente contará com Lula. E, sem ele, não terá outro nome viável.
Ou o PT se isola, correndo o sério risco de virar uma legenda de
gueto, ou modestamente, e abdicando do protagonismo, tenta se juntar com
os partidos que ainda aceitam sua companhia. O “nós contra eles” em
nada o ajudará. Só lhe restará o esforço desesperado para ampliar o
“nós” sem desprezar necessariamente o “eles”.
Não será uma tarefa fácil. Para executá-la com êxito, o PT será
obrigado a reconhecer seus erros, a refletir sobre eles, a mudar de
comportamento, a reconciliar-se com valores que desprezou, a renovar-se
enfim, e a ter paciência. Muita paciência. Recuperar-se de queda é mais
difícil do que ascender. Em menos de 40 anos, o PT subiu e afundou.
Quando Getúlio Vargas, em 1950, voltou ao poder como presidente
eleito e não mais como ditador, os partidos que o apoiaram, PTB e PSD os
maiores deles, pareciam destinados a ter vida longa. O PTB ainda existe
agora sob a direção de Roberto Jefferson. Gilberto Kassab preside um
PSD que nada tem a ver com o PSD original.
A UDN que se opunha a Getúlio desapareceu. Assim como desapareceu o
Partido Comunista italiano, o mais poderoso do mundo ocidental nos anos
70 do século passado. O Partido Comunista português ainda existe, mas
não passa de uma pálida sombra do que foi um dia.
Ricardo Noblat
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