Maria Francisca Coruja, diplomada em direito vai unir-se aos demais
certificados que já coleciona no currículo: graduação em ciências
biológicas e pós-graduação em pedagogia. “A gente nunca sabe o
suficiente, sempre há coisas para aprender na vida”, pondera.
Determinada, já se prepara para um novo desafio: o exame da Ordem dos
Advogados do Brasil. Aos 86 anos, Dona Coruja, como é carinhosamente
chamada, quer atuar na área de direito previdenciário. “Pretendo
trabalhar com a terceira idade, para ajudar vovozinhas e vovozinhos que
precisam”, disse ao G1.
Vai ser um trabalho voluntário. “Ganho o suficiente para viver bem e não
vou levar dinheiro para o céu.” Viúva desde 1997, retomou os estudos em
2009, após a perda da mãe. “No início, fui [para a faculdade] para
preencher a vida, que estava solitária. Mas, quando entrei, fui
planejando meu futuro.”
Ela já inspira outras pessoas. Na semana passada, quando comprava um
vestido para a formatura no Centro Universitário La Salle (RS), se
espantou com a reação da vendedora. “A moça me disse: ‘Tu estás se
formando em direito com 86 anos? Que vergonha de mim’. Ela tinha 50 anos
e se achava velha para isso”, comenta, indignada.
E já é fato que a universidade não é mais um ambiente frequentado
somente por gente jovem. O perfil do ensino superior no Brasil mudou.
Dados do Ministério da Educação (MEC) apontam que houve um aumento de
40% no número de pessoas acima dos 60 anos dentro da universidade, entre
2010 e 2012.
Dona Coruja é a mais velha da turma de estudantes de direito (Foto: Arquivo pessoal).
Graduada em ciências biológicas e com pós em pedagogia, a idosa
aposentou-se em 1983, depois de fazer carreira por 35 anos no
magistério. O diploma em direito vai unir-se aos demais certificados que
já coleciona no currículo. “Eu me aposentei, mas não parei. Nunca. Tem
uma frase que sempre usei na minha vida: ‘Todo o movimento que
estaciona, morre’. Então eu não paro nunca”, afirma.
Apesar da idade avançada, Dona Coruja não abre mão do sonho de exercer a
profissão de advogada de forma voluntária, na área do direito
previdenciário. “Vai ser um trabalho gratuito. Eu sou muito modesta, já
ganho o suficiente para viver bem”, sustenta ela. “Eu tenho onde morar,
já fiz muitas viagens pelo mundo. Sei administrar meu dinheiro, ele
rende. Então eu não tenho ambição por dinheiro. Eu não vou levar
dinheiro para o céu”, completa.
Estudar para ela nunca foi problema. Pelo contrário, era prazer. Filha
de professor, entrou na escola já sabendo ler e escrever, aos 5 anos.
“Aprendi com o meu pai”, conta a irmã mais velha de uma família humilde
de sete irmãos.
Nascida em Barra do Ribeiro, a cerca de 60 km de Porto Alegre, começou a
trabalhar ainda adolescente. Com a morte do pai, aos 15 anos procurou
emprego para ajudar a mãe, que cuidava do lar, com as despesas da casa.
“Nossa família não tinha muitos recursos. A gente se criou no interior,
uma vida modesta”, lembra. Aos 19, casou-se em Gravataí, na Região
Metropolitana. Logo se mudou para a capital, onde teve os dois filhos
Elaine Terezinha, 59 anos, e Sérgio Augusto, 66 anos.
É no passado que Dona Coruja busca inspiração para correr atrás dos
sonhos que ainda conserva vivos. “Aos meus queridos pais, minha eterna
gratidão pela luta empreendida para custear meus estudos de 1º grau,
alicerce que hoje completo a obra sonhada”, escreveu ela em seu convite
de formatura.
A única tristeza no meio de um período tão alegre na vida de Dona Coruja
é a frágil saúde da filha, que está hospitalizada com pneumonia e
recebe os cuidados da mãe. “Fiquei tão envolvida com isso que nem pude
mandar todos os convites”, lamenta. Por essa razão, a festa de formatura
será bem simples. “Em família e com amigos bem íntimos”, resume.
Aluna aplicada e cheia de opiniões
Durante os seis anos em que esteve na faculdade, Dona Coruja manteve a
rotina de ir de ônibus ou trem até a universidade em Canoas, trajeto que
levava cerca de 45 minutos. Nem mesmo algumas aulas no turno da noite a
intimidavam a usar o transporte coletivo. “Eu tenho muita fé. Sou
invisível para o mal”, brinca.
Em sala de aula, Dona Coruja era referência na turma, querida tanto por
professores como pelos colegas. Embora não saiba explicar o que a levou a
optar pelo direito, descobriu nas leis e códigos penais uma nova
paixão. O bom desempenho é resultado de horas de estudo em casa. “Sou
apaixonada pela educação, pela instrução. Estudo 10, 12 horas por dia”,
diz.
Tanta leitura rende assunto. Sobre temas polêmicos, como a proposta de
redução da maioridade penal de 18 para 16 anos no caso de crimes de
homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte e crimes hediondos,
não tem medo de se posicionar. “Isso não adianta nada. Nada. Eles saem
pior de lá [da cadeia]. Ah, se eu pudesse pegar esse mundo e virar do
lado avesso”, argumenta.
Apesar de ser reconhecida e elogiada por seus feitos, Dona Coruja é
modesta e evita o rótulo de exemplo. “A gente nunca sabe o suficiente,
sempre há coisas para aprender na vida”, conclui.
Com informações do G1

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