Uma ovelha geneticamente modificada com uma proteína de água-viva,
utilizada em pesquisas científicas na área de cardiologia na França,
acabou sendo enviada a um abatedouro do país e vendida para consumo,
lançando novos debates sobre a segurança alimentar.
O caso envolve o prestigioso Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica
(Inra) da França, que, entre outras atividades, desenvolve programas
científicos na área médica utilizando animais.
"O primeiro erro foi colocar a ovelha geneticamente modificada em um
lote com animais normais, de criação. Em seguida, esses animais foram
transferidos para o abatedouro.
Dessa forma, a ovelha, que não deveria estar nesse rebanho, entrou na
cadeia de alimentação", declarou o presidente do Inra, Benoît Malpaux.
O ministro da Agricultura, Stéphane Le Foll, disse que o incidente "é
inaceitável" e pediu ao Inra para realizar, até o final do mês, um
relatório sobre o problema.
A ovelha Rubi, que com grande probabilidade foi parar na mesa de um
consumidor, tinha uma proteína extraída da medusa, a GFP (sigla em
inglês para Proteína Verde Fluorescente), que torna as células
fluorescentes e deixa a pele translúcida.
Essa proteína é usada em experimentos científicos; ela dá luminosidade a
outras proteínas ou genes e permite que cientistas acompanhem o
movimentos e comportamento destes.
A ovelha fazia parte de uma pesquisa do Inra para estudar o transplante
de células utilizadas para restaurar a função cardíaca após um infarto
do miocárdio.
Esse estudo é realizado por um laboratório do Inra, a Unidade Comum de
Experimentos Animais (Ucea), em Jouy-en-Josas, na periferia de Paris.
O instituto vende para abatedouros animais "normais", que não foram geneticamente modificados.
Segundo um comunicado do Inra, a ovelha foi transferida em agosto
passado para um abatedouro "parceiro" e vendida para um particular em
outubro. A notícia só foi revelada na terça-feira.
De propósito
O jornal "Le Parisien", que revelou o caso, diz que investigações
preliminares sugerem que um funcionário do laboratório teria colocado
propositadamente a ovelha Rubi no rebanho destinado ao abatedouro para
se vingar de um chefe desafeto.
"Algumas pistas indicam uma ação envolvendo dois funcionários que agiram
com o objetivo de prejudicar ", disse ao jornal o advogado do Inra,
Alexandre Gaudin.
Quando percebeu que a ovelha Rubi havia sumido, o chefe, por sua vez, teria preferido esconder o problema.
O Inra afirma em um comunicado que "os fatos foram dissimulados por um agente do instituto".
De acordo com o Inra e especialistas na área, o consumo da carne da ovelha geneticamente modificada não causa riscos sanitários.
"Essa proteína (a GFP) não é tóxica. Ela é normalmente utilizada em
protocolos de pesquisas, em oncologia e outras doenças. A sua descoberta
e utilização receberam um prêmio Nobel em 2008", afirma o Inra.
"É como comer carne de cordeiro com o gene da proteína da medusa que a
deixa transparente. Não faz mal à saúde", diz Laurent Lasne, presidente
do sindicato de veterinários inspetores.
O instituto informa ter acionado a justiça para investigar o caso.
Após o recente escândalo da carne de cavalo vendida em pratos prontos
como se fosse de boi, que atingiu várias marcas de alimentos e supermercados
na França, o caso da ovelha Rubi está sendo visto como mais um exemplo
das falhas no rastreamento de carnes no país.
Com informações do
G1

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