Aliny Gama e Carlos Madeiro Reprodução/Redes sociais.
Em uma daquelas peças que o destino prega, os moradores do Sudeste são
vítimas hoje de provocações parecidas com as que muitos costumavam fazer
com os nordestinos. Tudo por conta da falta de água que atinge a região
e serve de combustível para uma nova onda de piadas, agora voltadas
principalmente contra os habitantes do Rio e de São Paulo. Com humor, nordestinos e nortistas não perdoam a atual crise hídrica nos
Estados do Sudeste e acirram o bairrismo entre as regiões. São muitas
as postagens em redes sociais que fazem menção à situação.
Em um vídeo que viralizou na internet nesta semana, um garoto do Acre
toma banho com o jato do cano ao retirar a torneira da pia. "Aqui é
Acre, p... As meninas de São Paulo, sabem o que elas querem? Banho!",
diz o menino.
Em uma outra postagem, moradores de Maceió (AL) tomam banho com um
caminhão-pipa durante as prévias carnavalescas e dizem que estão
"ostentando" por terem água. "Enquanto vocês criticam nós, nordestinos,
eu tomo banho de chuveiro. Claro que é com moderação", diz, em outro vídeo, o promotor de eventos Galisteu Matias, que reside em Maceió.
Mas qual é o limite entre brincadeira e ofensa? O professor de direito e
processo penal da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), Welton
Roberto, avalia que, nos exemplos citados, não ocorreu nenhum crime e,
apesar do gosto duvidoso das piadas, estes casos não caracterizam
injúria. "Só existiria crime se fosse postada alguma agressão, como alguém
chamando o outro de burro ou outro palavrão que fosse, caracterizando a
injúria penal. Mas brincadeira, mesmo sendo de mal gosto, é brincadeira.
Vejo que não atingiu de forma discriminatória ninguém, nem atingiu a
dignidade de ninguém", diz Roberto.
O advogado afirma que quem se sentir ofendido por ter a honra atingida
em alguma postagem na internet deve salvar o material e contratar um
advogado para que seja feita a queixa-crime. O crime de injúria é
previsto no Código Penal e, em caso de condenação, a pena varia de
acordo com o grau da ofensa.
Vingança
Para o doutor em história social pela USP (Universidade de São Paulo) e
professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), Michel Zaidan
Filho, a rixa entre moradores do Nordeste e do Sudeste é antiga e existe
desde o início do século passado. "Esse problema remonta desde que alguns Estados do Nordeste, da região
sucroalcooleira, perderam importância no contexto econômico e social.
Ainda na Primeira República (1889-1930), a região entrou em uma crise
grande e se criou uma divisão do trabalho que até hoje persiste: o
Nordeste comprador de mercadorias e insumos e fornecedor de
mão-de-obra", afirma o pesquisador.
Sobre as piadas que passaram a circular com provocações sobre a crise
hídrica nos Estados do Sudeste, Zaidan Filho avalia que são uma
consequência normal e uma espécie de vingança de quem sempre foi o alvo
da gozação. Para ele, elas também fazem parte de uma herança cultural. "Essa vingança faz parte deste contexto marcado por desigualdade e
diferenciação cultural muito grande. Isso é um mecanismo psicológico
muito comum, só que agora se inverteu, com a região mais forte e
poderosa penalizada pelo racionamento de energia e água. Agora, fica
muito conveniente ridicularizá-los", afirma.
Apesar do clima ser de piadas, o professor aponta problemas de
convivência que podem resultar da criação de grupos regionais. "O
produto que existe é um apartheid, um separatismo que emerge sobretudo
em períodos de crise, quando se demoniza os nordestinos. Na Europa, isso
também existe com os imigrantes, que são responsabilizados pela crise
econômica. É um pouco da situação que ocorre no Brasil", conclui o
pesquisador.

0 comments :
Postar um comentário