G1
RN O sertanejo que mora no Seridó potiguar nunca sofreu tanto com a
falta de chuvas. “Minha mãe dizia que nós tínhamos um mar de água doce
na porta de casa, e que jamais nos preocuparíamos com a seca. Agora, só
nos resta rezar”, lamenta o agricultor Fabiano Santos. Como ele, mais de
11 mil pessoas que vivem em Acari e 44 mil em Currais Novos dependem do
açude Gargalheiras, que está com 5,6% da capacidade. As prefeituras
dizem que a situação é desesperadora. O Seridó é uma das regiões mais
afetadas pela seca no Nordeste, e fica no semiárido do Rio Grande do Norte, conhecido pela pouca folhagem e sombra da vegetação.
Para
a Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern), a única
solução é racionar. Nas duas cidades, a empresa impôs rodízios para não
ter que suspender o abastecimento. Já o escritório local do Departamento
de Obras Contra a Seca (Dnocs) diz que não há obras em andamento e a
única coisa a fazer agora é torcer para que as chuvas venham logo. Na
região, não há boas precipitações desde o início do ano. O Dnocs é uma
autarquia federal vinculada ao Ministério da Integração Nacional e tem
como papel principal executar políticas para o beneficiamento de áreas e
obras de proteção contra as secas e inundações.
O G1 foi
ver de perto o "mar" dos seridoenses. A primeira parada foi em Acari, a
pouco mais de 200 quilômetros de Natal. Eleito uma das sete maravilhas
do estado em um concurso realizado por um jornal, o Gargalheiras (cujo
nome oficial é açude Marechal Dutra) foi inaugurado em 1959. Ao longo de
55 anos, as águas transpuseram a parede da barragem, que tem 25 metros
de altura, pelo menos 30 vezes.
A
última sangria, em maio de 2011, com uma lâmina d'água de mais de 1
metro, formou uma cachoeira artificial que se tornou ponto turístico
durante duas semanas. Agora a paisagem é outra. O reservatório, um dos
maiores do estado, pode armazenar até 44,5 milhões de metros cúbicos de
água, mas está no nível mais baixo da história (5,6%). A medição mais
recente foi feita pelo Dnocs no dia 21 de outubro.
'Agora, só nos resta rezar', lamenta o agricultor
Fabiano Medeiros (Foto: Anderson Barbosa/G1)
Pelo tamanho do reservatório e importância econômica para toda a região,
o sertanejo acreditou que os efeitos da seca haviam se tornado
lembranças do passado. “A alegria do homem do campo foi embora,
evaporou. Só ficou a preocupação”, afirma Francisco das Chagas Barbalho,
de 59 anos.Fabiano Medeiros (Foto: Anderson Barbosa/G1)
Funcionário de carreira, ele trabalha há mais de 30 anos no escritório do Dnocs em Acari. “Na região, a última chuva considerável, cerca de 80 milímetros, caiu em janeiro. Aqui e acolá vem uma garoa, que não dá para nada. O Dnocs não tem o que fazer. É pedir a Deus um inverno bom”, acrescenta.
“A sangria do Gargalheiras é um espetáculo que atrai milhares de pessoas. Turistas movimentam a economia da cidade. A pesca se fortalece. Hoje não
tem mais nada disso”, lamenta Celso Medeiros, que já presidiu a colônia de pescadores da região e agora toma conta de uma das pousadas mais tradicionais de Acari. “Há três anos aqui vivia cheio de gente. Os onze quartos da pousada estavam sempre lotados. Hoje não dá quase ninguém. Quem quer ver uma beleza dessa seca? É muito triste assim como tá”, afirma.
À
esquerda, açude Gargalheiras em 2011, quando ainda ocorria a 'sangria',
a cascata artificial; à esquerda, nos dias atuais, sob a seca (Foto: Canindé Soares e Anderson Barbosa/G1)
José Luiz é um dos poucos pescadores que ainda arriscam a sorte em Gargalheiras (Foto: Fred Carvalho/G1)A tristeza de Celso é compartilhada pelo pescador José Luiz. Com 60
anos, ele nem precisa mais de canoa. Com o nível da água baixo, é
possível descer pelas margens da barragem e andar pelo leito do rio.
José é um dos que ainda arriscam passar horas lá e sair com poucos
peixes na mão. “É necessidade. Mesmo dando muito, pouco ou quase nada, é
daqui que eu tiro o sustento da minha família. Há três anos pescava até
30 quilos por dia de tilápia e camarão. Hoje nem chega a 5 quilos. Dá
para comer um pouco e o resto a gente vende”, diz. Sentado numa pedra,
quase embaixo da imponente parede do açude, ele deposita na fé a
esperança de dias melhores: “Só Deus para nos ajudar"Francisco Medeiros, conhecido como Titi, tem 50 anos e diz ser um dos
pescadores mais ativos da região. “Pesco desde os 12 anos, e nunca vi
uma coisa tão triste assim. Mal dá para viver. Sem dinheiro, atrasam as
contas de água, luz e gás. Tem o seguro do defeso, que ajuda, mas que só
começa a ser pago no mês que vem. Recebemos um salário mínimo por três
meses quando a pesca é proibida por causa da desova. Este ano, como está
muito ruim, estão dizendo que vão pagar quatro meses. Sei não”,
comenta.
Francisco Medeiros, o Titi, mostra o pouco do
camarão que conseguiu pegar
(Foto: Anderson Barbosa/G1)
Enquanto
aguarda pela recuperação do Gargalheiras, ele mostra o pouco do camarão
que conseguiu pegar. “Com o açude cheio, o camarão é graúdo. E dá para
pegar mais de 30 quilos. Hoje só tem assim, bem miudinho. Só serve para
moer e fazer linguiça de camarão. É trabalho dobrado para ganhar bem
menos”, reclama.camarão que conseguiu pegar
(Foto: Anderson Barbosa/G1)
A Prefeitura de Acari diz que busca parcerias para tentar minimizar os efeitos da estiagem. José Ari Bezerra Dantas, secretário de Agricultura, Meio Ambiente e Abastecimento do município, conta que desde o início da estiagem prolongada, ainda em 2012, 13 poços artesanais foram perfurados nas comunidades rurais. “Cinco poços foram perfurados pela Secretaria Estadual de Recursos Hídricos; os outros oito pelo Exército, por meio da Operação Pipa. Estamos tentando outros 15 poços no Dnocs”, afirma.
O secretário também destaca atuação da Operação Pipa no município, que por meio de carros-pipa retira água do Gargalheiras, leva para a central de tratamento da Caern e devolve à população abastecendo as cisternas das comunidades mais afastadas. Contudo, José Ari admite que as medidas não são suficientes. Para ele, a situação é mais preocupante do que se imagina. “É desesperadora. Pode perguntar para a Caern. Se não chover até o fim do ano, o Gargalheiras vai entrar no volume morto, que é uma água muito suja. Provavelmente será preciso intensificar o rodízio de água aqui no município”, acrescenta.

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